quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Inevitável reflexão existencial, em 2008/2009


Chorei muito naquele dia. Chorei mesmo. Eu sentia que aqueles desconhecidos que estavam perto de mim queriam me chamar para a confraternização, mas eu baixava a cabeça. Seria constrangedor demais ter que mendigar atenção.

Os fogos lá em cima amenizavam o barulho dos meus soluços, da minha angústia. E eu não estava tão desamparado assim: minha mãe havia visitado sua amiga e minha namorada passava a virada com seus pais. Depois ela viria me ver...

Mas é que bateu um sentimento de desamparo, de solidão. E lembrava compulsivamente das coisas que vivi com meu pai, do quanto ele se estrepava para nos dar uma vida um pouco mais tranquila. Das peripécias da infância, da adolescência. E de todos os meus erros.

Era eu e meu carro, apenas. Foi insuportável pra mim, no Laranjal, no trapiche, aquela festa coletiva. A gente está sozinho no mundo, pensava. Por mais amigos que você tenha, por mais numerosa que seja sua família, a gente está sozinho no mundo.

Em algum momento, numa dada circunstância, você se verá sozinho.
E a gente é o resultado de tudo que vivemos, de tudo que vimos, de tudo que ouvimos, de tudo que lemos. Mas a gente escolhe os alimentos.

O mundo não nos molda. O que me conforta, hoje, é que a gente molda nosso mundinho.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Só no osso, em nome do amor.


Eu que botava cegamente nos braços, no pescoço, no peito. Era mais que religião pra mim. Deixava de conversar com uma gata porque não estava devidamente protegido. Sob um sol escaldante, não beijava ninguém em nome da minha saúde. Achava que vivia de forma saudável.

Pois soube, por fonte quente, que sempre fui enganado. Tiraram de mim, ou melhor, da minha adolescência a oportunidade de aquisição de experiência contundente, em matéria de sexo.

E o que é pior: segundo entendidos, alguns contêm substâncias cancerígenas! Nossa, a mensagem que Pedro Bial divulgava nas rádios desse território – e comovia muitos - não passava de falácia, de charlatanice.

Agora vou me queimar cegamente. Sem camada de ozônio e sem filtro solar, vou beijar até ficar só no esqueleto. Eu e ela queimando sob a luz escaldante. Os veranistas, diante da ocasião, anunciarão em plena avenida:

- Olham lá, aqueles dois ignoraram tudo!
- Aqueles dois morreram queimados pelo amor!

E nossa relação ganhará repercussão internacional. Ficaremos, por muitos dias, no topo da lista dos vídeos mais assistidos no You Tube.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Vaidade inconveniente


Não pude evitar. A árvore estava na sala, ao lado do televisor, linda. Os presentes decoravam a estante. Luzes e mais luzes. E ruídos de fogos. E nós dois. Desferi as tais palavras.

Elas me incomodavam. Não suportava mais elas acumuladas no meu gogó. Pensei e pense e pensei. Mas devia de falar, não tinha jeito. Ou falava ou o ano subseqüente ficaria manchado.

- quero me separar!
- hahahah, que brincadeira de mau gosto, respondeu.

Paramos por dois minutos num flerte assustador. Não havia clima pra mais nada. Mesmo sabendo das consequências, não controlei o ímpeto da minha vaidade.

Sempre levei a risca o conceito de ser feliz. E estar ao lado dela – naquela altura - era estar muito longe disso. Era uma traição dupla. Os dois corações precisavam saber, não havia mais tempo.

Lembro-me que dormir na sala do meu amigo, naquela noite, foi pior do que produzir aquela sentença na sala. Foi muito pior. Por que não agi antes? Por que posterguei a proposta do meu coração?

Nunca fui tão inconveniente num dia só. Nunca fui tão provido de vaidade numa noite. Estraçalhar uma ocasião assim, com apenas três palavras.
Verdade é que aprendi a ser mais humilde.
Mas ela nunca mais olhou na minha cara.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Eu queria ser cartola


Sentado, só, numa sala privilegiada. Nela, apenas meu uísque e meus cigarros. E o celular: que não para! Preciso desligá-lo. Torcendo como torcedor. Sofrendo como um apaixonado.

Só durante os noventa minutos. Depois, deixo a porta ser aberta, permito interrupções e palpites. E xingo, e emito opinião sobre tudo e sobre todos. E deixo minhas dependências para ir até o campo e insultar o árbitro.

A torcida espera isso de mim. Os jogadores que eu contratei e que pago me seguram pelo paletó. Meu rosto é boxeado por microfones, minha voz é articulada, minha voz é inconveniente:

- ele é um safado!
- ele é um safado!
- isso sempre acontece conosco!

Semana cheia. Programas e explicações sobre tal ato. Repercussão nacional. Internacional. Puxam minha vida em revista, expõem minha trajetória. Explicam como me tornei o cartola maior.

Não sei vocês, mas eu vejo um quê de poético nisso tudo. Um espécie de ator, de moleque deslumbrado com o posto que ocupa. Alguém com privilégio de expor sua irracionalidade, sua paixão em rede nacional.

Eu queria ser cartola.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

É por causa do lado escuro do santo, meu velho.



Aconselhei meu amigo adolescente a ser galinha. Não vale a pena ostentar um cartaz de adjetivos nessa idade, argumentei. É uma furada construir uma imagem de namorado perfeito, fofo etc. Isso é viver como um idoso num corpo jovial.

E ele – curioso – ouvia-me:

- Quando isso ocorre, meu velho, ficamos vetados de beijos descompromissados. As gurias – pela fama que temos e pelo bafafá feminista – querem troca de saliva permanente, progressiva, como a escova. Elas não admitem a possibilidade daquele corpo apenas passar. Elas desejam tê-lo.

O safado nunca terá tal cartaz, mas terá sempre uma boca. E por mais babada que essa boca possa estar, mesmo assim, ele curte a possibilidade de deixar a sua. O santo não babará por esporte, babará como trabalho.

Esse é o lado escuro do santo: um perfeito par, apenas isso. Não interessa se teus hormônios estejam latentes, se teu ímpeto ferve nas veias. Tudo isso só será usado por uma, apenas.

E o pior: Tua fama de santo só aumentará no ciclo feminista, as amigas dela saberão logo, e tu chorarás por não teres usado inteligentemente o que há de mais valioso (nessa idade) em ti: teu corpo.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Breve ensaio sobre o café


O tom da sua pele é café-com-leite. Tenho vontade de bebê-la. Pura, em sua essência. Sem complementos. O melhor café é o bebido. Esse momento intimista em que é possível ouvi-lo descendo sua traquéia.

Sem conversas, sem ruídos. Não damos bola para o que estão dizendo sobre nós, sobre mim e o café. Bloqueio meus tímpanos, e o café esconde-se em mim. Ele percebe que só encontrará a realização dentro do meu corpo.

E eu só me sentirei saciado quando sua matéria fizer parte da minha. Eu não urino café. Café não é impureza. Impureza lembra cerveja. Café não combina com apelação. Café lembra sutileza.

Os divulgadores não saem por aí, em seus carros, anunciado café free para elas, nem dose-dupla para eles. Ele não é uma bebida prostituta, dessas que se compra e se usa.
O café é um especialista, ou seja, só te ouvirá com dia e hora marcados. Assim, ele te orientará.

Só lembramos da primeira professora, do primeiro beijo, de tudo que fizemos, quando bebemos café. Se fizermos isso bebendo outra coisa é só para não se sentir excluído da conversa.

O café é um acompanhamento espiritual em forma líquida.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

A interferência dos gritos


Quando a via, seu coração pulsava ouriçado, o cérebro balançava prejudicando seu reflexo e seu senso de equilíbrio. Era exatamente isso que acontecia. O que começou com uma singela amizade, transformou-se num sentimento arrebatador. O seu corpo acusava os sintomas.

E agora? Como lidar com isso, não se trata apenas de uma relação, refletia Clarisse. Trata-se de várias relações periféricas. Ela entendia que era preciso harmonizar os gestos, controlar a sede para não serem vítimas dessa sociedade que – segundo ela – era em demasiado careta. Clarisse preocupava-se demais, sobretudo com o outro lado:
- não quero vê-la sofrer o que já sofri.

Mas a outra viajou. Uma viagem repentina, imprevista, trágica para Clarisse. Estava só pelo menos por um mês. Evitando a comunicação, pois era arriscado dar margem pra um sentimento de desconfiança que já se instalava pelos próximos, Clarisse era só calendário. E angústia.

Sua preocupação era circular com uma caneta vermelha os dias que passavam, aquele papel com números era a peça mais valiosa da casa. O mural com os momentos marcantes e em posição de destaque já assumira papel de coadjuvante. O ambiente havia mudado, profundamente.

Não entendiam porque passara a comer pouco, a falar pouco. Sua mãe – atenciosa – a indagava a fim de ajudar de algum jeito, dizia que ela estava ansiosa, mas Clarisse, na insistente introspecção, contornava o assunto com um simples:
- nada, isso vai passar.

Ela tinha razão. Passou. E passou também o desejo recíproco. Quando regressou, falou-lhe que encontrou um velho amigo e que por força das circunstâncias reataram um romance que começara desde que eram crianças. Ela se sentia realizada, animada:
- Clarrise, não sei te explicar, o que sinto por ele é mágico, acho que éramos...

Finalmente Clarisse superou, depois de um longo tempo, o que parecia insuperável. E foi logo substituiu o calendário, reorganizar as fotos do mural e pensou:
- daqui pra frente não vou harmonizar mais nada, vou proteger apenas meu coração, me arremessar em direção ao que ele sentir, grite quem gritar.

E fechou com força a porta do seu quarto.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Anti-profissionalismo na relação


Eu achava que ela reconhecia muito bem os limites de seu laboratório. Achava que em sua bolsa havia apenas perfumes que liberavam fragrância, além de maquiagens. E também um espelho. Mas outras coisas estavam maquiadas...

Isso só pode ser ambição. Como é que não havia percebido? Ela sempre me diz que brinca de Deus, de segunda a sexta. Ela afirma e reitera que a biotecnologia faz o impossível, coloca flores em pedra, transforma o preto e branco em anil.

Agora tudo faz sentido nessa madrugada de quinta. Levei mais de meio ano para constatar seu espírito malévolo e ambicioso. Ela se aproveitou e se aproveita do meu estado de intoxicação, do meu transe, só para satisfazer a inteligência do seu corpo.

Por isso que me sinto embriagado todas as vezes que ela faz o chimarrão. Por isso que suas mãos têm um tato diferente, que parecem liberar uma descarga sobre meu peito. Por isso que seu beijo adormece meus lábios e meu aparelho fonador silencia.

Minhas cordas vocais atrofiam-se e sua língua anestesia minha ansiedade.

Preciso de uma clínica de desintoxicação, já! Limpar-me desse amor que ela criou ambiciosamente em seu laboratório e que agora – enquanto escrevo - exala da minha pele e se espalha pela casa, quase como um incenso.

Serão anos de sessões...

sábado, 7 de novembro de 2009

Verossimilhança conjugal


É bom receber a visita de um casal amigo. É bom sentar-se no sofá para ouvi-los, para trocarmos impressões sobre nossas histórias. Tudo que eles dizem sobre a história deles tem uma lógica, todas as ideias e contradições deles obedecem às ideias e contradições nossas.

E o que eles falam soa pra mim como uma teoria da narrativa. É estudar o movimento de dois personagens dentro de um espaço quase que personagem. É entender por que o ambiente é importante para a sucessão dos acontecimentos.

Somos cúmplices. Entendemos até suas expressões faciais: os olhares, a gargalhada, os sorrisos contidos. Os aspectos que transformam a relação em literatura. Os exageros, o desvio da linguagem, o estranhamento. O xingamento.

O herói. Quando casamos ou quando começamos a namorar, tornamo-nos autores de primeira grandeza. Passamos a figurar em qualquer lista de leitura. Viramos imortais da Academia Brasileira de Desaforos. Formamos público.

Entregar-se para relação é apreciar literatura. É reconhecer o prazer e a importância de qualquer gênero narrativo. É deliciar-se com a poesia, é ficar em transe com um conto, é ter paciência para percorrer o longo e sinuoso movimento de um romance.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Banco ocupado


Não conseguiria suportar por tanto tempo o banco do carona imóvel. É muito triste uma ferramenta sendo mal utilizada. Sensação esquisita essa de visitar os lugares mais povoados na companhia fiel da solidão.

Agora ela voltou. Agora preciso bater todas as semanas o tapete ao lado. E conferir o cinto. Agora posso contar com sua solidariedade de ajeitar o espelho para sairmos da vaga com segurança. Dirijo melhor.

O quadrado, na época, nunca esteve tão quadrado. O laranjal não tinha mais o mesmo significado. Quando chegava lá batia uma vontade de sair logo de lá. Não me dedicava em achar uma vaga na sombra, numa posição boa para ver o que acontece aos nossos olhos.

Os entregadores ganharam dinheiro comigo nesse período. Os lanches saiam da chapa direto para minha mesa. Sentia saudade de pedir o cardápio pra entrarmos num consenso. Eu comia o que ela comia, dava-me prazer.

Agora voltaram nossas conversas nos bancos. O quadrado hoje serve para passarmos a semana em revista e projetarmos a próxima. O laranjal estimula nossa imaginação, ele permite que sonhemos com nossa casa de praia, com nossos amigos por lá.

Agora voltei a puxar assunto com os garçons. Nossa preocupação voltou a ser com uma mesa disponível e bem posicionada. E com a noite. E com nossas vidas. E com a nossa relação.

Tudo isso porque o banco do carona do meu carro voltou a ser ocupado. O banco voltou a ter sentido pra mim.

sábado, 24 de outubro de 2009

Só serei melhor com um filho


Já raciocinei o suficiente para afirmar isso. Não preciso de um compromisso semanal num consultório no centro da cidade. O psicólogo se aborrecerá. Também não é suficiente um acompanhamento espiritual. As entidades não descerão diante da minha presença.

A literatura de auto-ajuda já não me informa mais. As conversas que travo com a mãe não duram mais que 7 minutos. Ela me entregou pra Deus, como dizem todas as mulheres machucadas por aí.

O ambiente universitário não abre a cabeça, pelo contrário. Na verdade, ele aumenta a angústia porque ampliamos os questionamentos. No meu curso, ainda não há uma disciplina que trate das questões do coração. Meu currículo é incompleto.

Só serei melhor quando for obrigado a dormir a prestação, a conta gotas. Só serei menos egoísta quando gastar menos dinheiro com cerveja, com cigarro. Só terei mais compaixão quando vê-lo dormir um sono profundo e gostoso.

Só serei mais sensível quando perceber o valor dos momentos corriqueiros, colocá-lo no meu colo para alimentá-lo. Fazê-lo arrotar e rir depois. Só terei mais responsabilidade quando me sentir obrigado a protegê-lo da diferença entre as calçadas. Não deixá-lo esfolar o joelho e os lábios.

Só serei mais inteligente quando pagar finalmente essa dívida que a vida me impôs. A vida me adotou. A vida me deu oportunidade também de acertar. E só acertarei quando der uma oportunidade a alguém.

Só serei melhor com um filho.

domingo, 18 de outubro de 2009

Errei



Agora sofro por não saber guiar na chuva, mesmo usando pneus de pista molhada. Eu não tive a devida preparação. Menosprezei as categorias inferiores, vi possibilidade de sucesso direto na principal. Não consegui controlar o meu ímpeto.

Farei, a partir de hoje, o que já devia ter feito: voltar. Começar a me dirigir na etapa dos iniciantes. Pela primeira vez pilotarei um Kart. Esse é o processo natural na vida de qualquer piloto, com ou sem talento.

É que os elogios foram muitos. Diziam que eu possuía frieza na hora de uma ultrapassagem, que tinha arrojo, que era delicado com o meu carro, que sabia valorizar a máquina que estava em minhas mãos.

Mas os elogios nem sempre mostram o que se passa nos bastidores. Os especialistas em fórmula um ainda não viam em mim um piloto pronto, ou seja, em plenas condições de brigar por título. Não dominei minha vaidade ao ignorá-los.

A sensação que tenho é que uma voz soprou em meu ouvido, brandamente. Ela disse que deveria parar com aquilo, que não deveria insistir naquela ilusão, por mais que a tentação de notoriedade fosse gostosa.

Eu não estava em paz comigo, por isso resolvi ouvi-la. E agora o que me resta é a humildade de reconhecer que o meu lugar, por enquanto, é no Kart. Preciso reparar o erro de não ter treinado primeiro com peças menores e mais simples.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Não compartilhamos os mesmos códigos


Papai e mamãe tiveram todo o cuidado para parecer lúdico, aquele processo. Esperaram uma luminosa manhã de domingo para proferirem as seguintes palavras: - filho, tu sabias que vieste dos nossos corações?

Eu já estava numa fase em que podia absorver o impacto daquela informação. Era o que eles imaginavam. Eles estavam errados. Passei a usar como pretexto todas as vezes que me repreendiam. Covardemente.

Eu os agredia com a pior das agressões, aquela em que os hematomas são invisíveis a olho nu. Anos depois, choquei-me com a sabedoria popular, parecia que ela era feita pra mim. A população produz os provérbios.

E um deles diz que toda a maldade dirigida a alguém, o retorno é dobrado. É o que aprendi. Eis o que pauta o meu viver: a cautela. Penso duas ou três vezes antes de dizer algo a alguém, por mais que esse alguém seja inconveniente.

E mesmo assim tenho a convicção de que continuo ferindo as pessoas. Por mais que experimento conversas longas e animadas, posso agredir no apagar das luzes, na produção da última frase. Ainda não domino virgulação, não domino pontuação.


É errando que se aprende diz outro provérbio. Não erro com as pessoas como errava com papai e mamãe. Hoje, erro talvez pela inocência de achar a que a melhor palavra para mim é também para o outro. Esqueço que o vocabulário é individual.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Não tenho como não ser celeste!


Eu sei que o Maradona já me emocionou. Ele e outros tantos. Não quero parecer ingrato com o talento argentino. A Argentina é e sempre vai ser a Argentina.

Mas não tem como não torcer pelo Uruguai. Vivi 1 ano numa região fronteiriça, fronteira com o Uruguai. E por essa razão peguei um carinho especial por esse país.

Hoje a noite é o dia da celeste.
Vamo, celeste!

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Isolação


Eu agora consigo entender a importância que Freud teve e ainda tem no universo. Agora estou experimentando seus conceitos, vivendo suas teorias, sofrendo com a constatação. Indelével constatação. Pratico um tolo protesto: a isolação.

Não encaro nada de frente, nada de peito aberto, como mostram os comerciais bonitos de televisão. Não pratico as atividades mais sadias para a alma, como procurar contornar os problemas com uma conversa branda e duradoura.

Não tenho paciência com os outros, muito menos comigo. Sou intolerante comigo. Desligo a televisão, fecho a porta do quarto e junto meus dicionários. É assim que me isolo. E torço para que ninguém interrompa minha leitura.

Enquanto isso ouço varias vozes na sala. É a mãe que não para um minuto com o controle. Eu agora entendo. Ela busca o afago de uma companhia. Ela gostaria que o filho, seu único, a acompanhasse. Ao me isolar, isolo minha mãe por tabela.

E o peso sobre minha cabeça aumenta. Se o meu egoísmo, que me acompanha a vinte e sete anos, me tortura, agora ainda mais. Porque existem pessoas, poucas pessoas, que bem ou mal se importam comigo, se interessam por mim.

E ao negar a possibilidade de uma companhia dessas pessoas, nego também a possibilidade de me fazer entender. E violento a paciência dos outros.

sábado, 10 de outubro de 2009

Malte acadêmico



- Lá vêm eles, resmunga a moça do bar...


Reclamações sobre os colegas desinteressados, observações sobre os professores mais arrogantes, lamentações sobre as notas. Salário. Futuro.

A incapacidade de se concentrar, a recusa à disciplina, as leituras que ainda não foram lidas. O desejo de encarar, paradoxalmente, outro curso. O malte. Tudo isso sai com naturalidade na medida em que o malte entra. É o processo natural de uma mesa de bar.

E há espaço também para reflexões estreitamente masculinas. A guria com o par de coxas mais avantajado da sala, a mais metida, a bobinha, a meiga. E a professora? Não, a professora é sempre avaliada em consenso: ou serve pra todos ou é apenas a professora.

Nessa altura, os problemas já ganharam tons confidenciais, o irmão que é chato, a namorada que exige relatório semanal, a vontade de levar uma colega pra cama. Cadê o pudor? Já falamos antes de pensar.

- Qual festa tem hoje? Quem toca? Quanto é pra entrar? Tu vais ir?
- Tchê, a gente tem que combinar uma festinha, um churras.
-Certo, certo!

É o fim que se anuncia. É o malte acadêmico que já usou e abusou de meia-dúzia de universitários.

sábado, 3 de outubro de 2009

Reflexos do baile


Dia lindo. 40 graus na cidade maravilhosa. A praia de Copacabana nunca tinha visto tanta gente aproveitando o mar. Todos estavam encantados com a nova cidade que se mostrava. Agora ela estava mais moderna. Mais maravilhosa.

Todas as obras estavam prontas, tudo fora concluído dentro do prazo previsto. Eram belas instalações. Nunca uma vila olímpica recebera tantos elogios, os atletas, de todos os países, falavam sobre o bom gosto que os brasileiros tiveram.

A remodelação do Maracanã, as pistas de atletismo, a superarena de vôlei montada a poucos metros do Atlântico. Um batalhão de repórteres e comentaristas sorria para o mundo. O satélite, lá no espaço, possuía um só compromisso: o Rio. E que cerimônia!

No quesito segurança a cidade também não deixava a desejar. Nenhum roubo, nenhum sequestro relâmpago, nenhuma ocorrência sequer. Até os marginais estavam preocupados com o melhor assento no estádio.

Cliques e mais cliques. Afinal, o homem biônico da Jamaica estava por lá, o tubarão estadunidense também, a craque de bola, a brasileira. E nas tarefas coletivas, o grande time de Bernardinho desfilava seu repertório de jogadas perfeitas, os negros do basquete americano voavam como nunca.

Tudo isso acontecia frenética e espontaneamente aos olhos de um menino. Ele acompanhava tudo, com todos os detalhes, pela sua televisão. Lá, no alto do morro em que morava, seu estado de êxtase já materializava a futura conversa com seu neto. A possibilidade de relatar ao pequeno que vira toda aquela festa do esporte aqui, a poucos quilômetros do seu morro.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Queria o que já vivi


Sempre me preocupei com o relógio. Frustrava-me quando não resolvia as coisas que roubavam o meu espaço. Quando criança, irritava-me o fato de perder alguns minutos do meu desenho favorito. Não admitia interrupção na Caverna do Dragão.

Na escola, minha única preocupação era com o tempo das aulas de educação física. Rezava para que o professor de matemática se atrasasse e torcia para que houvesse prolongação do futebol. Meu tempo, no colégio, era o futebol.

Meus amigos e eu brincávamos até sermos repreendidos pelos pais. Era uma irresponsabilidade gostosa, típica de moleques de vila. Sujeira por todo o corpo, fadiga total. Fazíamos isso para debochar das outras crianças que tinham horário. Dizíamos que eles haviam perdido o melhor da brincadeira.

Meu primeiro beijo foi frustrante. Babei, mordi. Hoje, não tem mais a mesma graça babar e morder. Não há ingenuidade, não há pureza. Hoje, não ajo sobre o tempo. O tempo já agiu sobre mim.

A impaciência, a incompreensão, a hostilidade. Tudo isso é resultado do tempo. O tempo que já vivi. E mesmo assim, gostaria de voltar, gostaria de regressar no tempo em que simplesmente vivíamos. Sem resultados, sem provação. Apenas para aproveitá-lo.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Não há espaço para vaidade


Queria fazer um intensivo com elas. E não faria questão de um certificado de 40 horas. Matricular-me-ia apenas com o intuito de crescer filosoficamente. Aqui, onde me encontro, é complicado crescer filosoficamente.

Aqui, crescemos materialmente, justificamos os meios em nome da bravata final. O valor está no tamanho da bravata. Para muitos, a relevância está no tamanho da barra lateral de rolagem. O tamanho do Lattes.

Que bobagem! Sou impotente. Eu, daqui algum tempo, também me preocuparei com o tamanho da minha página virtual. Além disso, existem outros fatores: a prestação do carro, do apartamento, o enxoval.

Não vejo a hora de mudar a página. Voltar como uma formiga. Minha única preocupação será com o bem comum da colônia. Trabalhar num formigueiro. Nesse ambiente, não há espaço para a vaidade. Não há bravata.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O mundo é mesmo deles


Ao entrar no quarto, percebo meu travesseiro preferido mijado. Possuo três e justamente o mais confortável está molhado. Viro bicho. Corro para seu lugar de meditação, produzo centenas de sentenças ásperas, xingo quase que irracionalmente.

Sempre a mesma coisa: estabeleço regras para um melhor monitoramento, vigia constante, nossa relação não suporta mais uma gota fora do pinico. Prometo agressão física, se ele não mudar de postura.

Ele parece não dar a mínima para a minha irritação. Que bicho irritante! Não suporto sua falta de respeito, comento com os mais próximos, que, ter bicho dá muito trabalho, que eles sujam demais a casa. O que falo é diferente do que sinto.

Continuo sendo hostil. Mas por que ele não se abala com a minha hostilidade? Será que não me leva a sério? Eu acho que o mundo é mesmo dos cachorros. Pensamos que estamos sempre no controle, mas, no fundo, acho que eles estão sempre debochando de nós.

Num momento extremo, depois de mais um mijo, dou com força desmedida um tapa em seu lombo. Pronto. Que alívio. Ele estava precisando, argumento. Minutos depois, ele aparece, como sempre, balançando o rabo, mostrando as presas como se quisesse rir.

E por que ele continua com tanta passividade, depois de um ato violento? É que não estamos acostumados com tamanho amor. Cachorro não sente paixão, não sente calor do momento. Cachorro sente amor, o verdadeiro, tolera tudo e troca a ignorância do dono pela companhia do dono.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Isso tem que parar


Tenho que parar. E pensar. O que realmente é importante pra mim? Eu preciso saber o que é importante pra mim? Não preciso. Eu prefiro saber o que é importante no momento. Sempre preferi os verbos conjugados no presente do indicativo.

Não tenho que me violentar e parcelar o tênis de 480 reais, para me sentir com os pés bonitos, e todos elogiarem o novo modelo da velha marca. Não vou praticar musculação visando o verão. Não é obrigatória a exposição de um abdômen firme.

Não preciso ler Os Lusíadas para confirmar meu bom gosto literário. Não tenho que aprender uma língua estrangeira. Ou duas ou três. Não preciso ir à cabeleireira para raspar minha cabeça. Abro mão de um pescoço bem feito.

Não sou obrigado a brigar com esse adversário invencível, o relógio, e justificar a ausência de tempo em nome de um bom salário. Não tenho que deixar a companhia da minha mãe antes dos trinta. Ela me deixará quando eu menos esperar.

Não tenho que estudar para aquele concurso de 8.000 reais mensais. Prefiro continuar no anonimato, não quero servir de exemplo, de referência pra ninguém. Vou ganhar o que eu fizer por merecer. Desejo atarefar-me com prazer.

Não tenho que desejar feliz aniversário para as pessoas, no Orkut. Gosto de parabenizá-las pessoalmente. Se não as vejo no dia, paciência. Ainda prefiro o abraço, o cheiro das roupas, as digitais calejadas e suadas.

Tenho que parar pra pensar. E ter paciência. Deixar o meu estado de espírito falar mais alto. Ouvir-me. Tenho que fazer e ser aquilo que eu achar que devo fazer e ser.
E não tenho que parar de sentir esperança por aqueles que não param para se ouvir.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Pinta: o lado escuro da lua


Adoro mulheres com pinta em uma das bochechas. Elas são especiais por serem misteriosas. Saborosas. Mas atenção: a pinta tem de aparecer somente em uma das maças do rosto. Dos dois lados, é sinal de exibição.

Com uma pinta solitária, a mulher reserva a outra metade de sua face para mostrar a pureza, a ingenuidade. O lado da pinta é o lado afetivo, provocador, sensual. É a metade da perdição.

Mulher sem pinta é mulher sem sal. Desculpem pelo meu radicalismo. Digamos, então, que, as mulheres sem pintas possuem outro tipo de sal. Mas não se trata do tempero que trato.

A pinta na bochecha é o trabalho artístico das células, é a tatuagem de amor produzida pela mãe e pelo pai. É um sinal feito, não para elas, mas para eles. Para nós. E o pior é que muitas perdem horas e horas rebocando o que já está pintado. O mesmo pintor da natureza.

Como são bobas. Preocupam-se demais com o batom, com o lápis, com o brilho dos cabelos, com a combinação da corrente com os brincos. Mal sabem que, no primeiro contato, nós olhamos mesmo é para a pinta. Ela que revela a personalidade da mulher. Ela é que nos faz apostar as fichas.

sábado, 12 de setembro de 2009

Notas do oitavo andar


Aguardavam-na no salão do segundo andar. Afinal, ela estava lá para um compromisso profissional. Pessoas de diferentes partes do estado aguardavam o seu discurso, eles eram a sua platéia. Ela desceu perfumada, maquiada, educada.
- Boa sorte, desejei.

Estou só. Serão duas horas de solidão. O que farei para passar prazerosamente esse tempo? Existem algumas alternativas. Descer os oito andares e ler o jornal local, na companhia do recepcionista. Apanhar o guarda-chuva e caminhar por essas estranhas ruas catarinenses. Tomar uma cerveja no boteco mais próximo.

Melhor permanecer na intimidade das nossas coisas. Elas me confortam. A televisão e o programa esportivo, a cama, a internet. Os meus cigarros. O que seria de mim nessas duas horas sem os meus cigarros?

Não consigo assistir os vídeos que gosto, na internet. Não encontro concentração. É que não estou acostumado com esse vento, que insiste em espiar. Vou fechar as janelas. E as cortinas. Quero um pouco de introspecção.

Não posso. Nesse quarto, o que há de mais belo é justamente a vista. Ela é muito diferente da que costumo ter. A janela e as cortinas devem permanecer abertas. Acho que vou tirar fotos.

Registrar os momentos é remediar a memória. É valorizar a idade. Já sei. Vou escrever. Eu gosto. E confesso que escrever sob tal circunstância é um tanto inspirador. Vou apertar a tecla nove e solicitar mais uma garrafa de água quente. Não vou abrir mão dos costumes gaúchos.

Os 120 minutos atípicos agora pertencem ao passado.
- E aí, como foi?
- Tudo bem, graças a deus.

Companhia com solavancos



Como um casal, dividimos dois espaços entre quarenta disponíveis. Nossa movimentação só poderá atingir um ângulo de 45 graus. Sob tal circunstância, é a hora de mostrar, mais do que tudo, o quanto somos amigos um do outro. Ofereço meu ombro esquerdo para que ela possa descansar ou cansar de pensar, de planejar, de refletir, até que suas pálpebras não aguentem as horas em linha reta.

E com o peso de sua cabeça, também reflito, também partilho meus desejos, minhas falhas, minha satisfação. Nossa conversa ganha um tom de confissão. E os solavancos do ônibus servem para arrumar ainda mais o que já estava arrumado. Os solavancos servem para reforçar o carinho. O motorista o faz de propósito.

A garrafa de água mineral que carrego e que abro, no fundo, é para ela, é para ratificar a importância da companhia, é para mostrá-la que não está só. E eu sei que em sua consciência, o moço sentado ao seu lado, na poltrona 22, também está seguro de que entre 40 espaços, dois foram reservados para a companhia do casal.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Mulheresdesobretudo


Sempre tive uma admiração especial pelas mulheres de sobretudo.
Elas são mais inteligentes, gostam de preservar a temperatura dos seus corpos, valorizam seu calor espiritual.
No inverno rigoroso, não saem pelas ruas exibindo seu par de coxas com um jeans excessivamente apertado. Isso é sinal de insegurança. A preocupação de mostrar a bunda, a metade norte da tatuagem e o pingente no umbigo é aflição.
A mulher que veste um sobretudo tem a sensibilidade de perceber, que o prazer está na descoberta, à sensualidade está nessa bela peça que alimenta a nossa imaginação.
Ela também deseja ouvir um assobio, ela também quer escutar uma cantada cafona de um macho disponível. Mas tudo isso tem de acontecer na iluminação apenas da lareira, no mistério das quatro paredes.
Nesse cenário, ela sentirá um enorme prazer em tirar o sobretudo.
Em tirar tudo.

sábado, 5 de setembro de 2009

Quando a gente se gosta, elas também gostam...


Foram-se os tempos de masturbação individual. E o sentimento de insegurança, de se achar incapaz de encontrar um amor verdadeiro e perpétuo, além da auto-estima baixa, tudo isso agora é passado.
A moça de vermelho – numa sincera conversa com a mãe – confessou que sempre o achou interessante. A de preto, do outro lado, observava-o todos os dias, pela janela, numa atmosfera platônica. E a outra, de calça branca, revelou sua queda na primeira vez que o viu, disse que era uma coisa de pele, de química.
E tudo isso aconteceu com o moço da foto, porque ele passou a confiar em si, porque agora ele se gosta...

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Expressionismo na relação


Arte de Vincent Van Gogh


É o que determina a vida útil do casal. Estou cada vez mais seguro disso.
Em cada conversa que travamos, torço para que os verbos não se repitam. Gosto de ouvi-la, porque nunca acerto os pronomes que irá usar, quando suponho um oblíquo, ela usa um reto. É sempre uma incógnita a posição do sujeito na sua cabeça, é sempre uma incógnita sua estrutura frasal. Os nossos ouvidos riem. Quando fomos convidados para uma cerimônia importante, eu imaginava uma escova progressiva. Tolice. Ela realçou o crespo, para a minha grata surpresa. Isso é gostoso, porque desidrata a lógica, neutraliza a cobrança.
Nosso namoro não é realista, não queremos compromisso com o real, tampouco surrealista, não somos um casal tão inconsciente assim. Nosso namoro é expressionista. Adoramos percepções distorcidas das formas. Pintamos o nosso sexo com tons fortes. Nosso compromisso é com a subjetividade dos dois.
As pessoas podem olhar, opinar, apreciar ou depreciar. O que elas nunca saberão é o que esses dois artistas sentem na confecção desse artesanato diário, que é o namoro.

domingo, 30 de agosto de 2009

O Orkut já me fez chorar, numa quarta e numa quinta


Era uma linda noite de quarta feira. Tão linda que não queria dormir, não queria desperdiçar a beleza da luminosidade das estrelas, que invadia as duas janelas de minha patética saleta. Devidamente alimentado, estava com gás para navegar nesse mundo de faz de conta, que é o da Internet. Mas meu senso de humor começara a dar sinal de cansaço, na medida em que as horas corriam. As páginas pelas quais passava já não evocavam concentração, precisava respeitar o meu cérebro e os meus olhos. Pois bem. Eis que num dos últimos movimentos com o rato, surge, pequena, no canto direito da tela, uma mensagem. Era um novo e-mail. E o pior: era de uma mulher. Pior ainda: não era da minha namorada. Ela, a tal mulher, desejava – singela e humildemente – ser minha amiga no Orkut. Nunca me importei em adicionar novos amigos, o único critério que levo a sério é que essa pessoa tenha algo que me chame atenção. E ela não tinha algo que me chamasse a atenção, tudo, absolutamente tudo, no seu Orkut, chamava-me à atenção. Fora incrível dissecar os detalhes daquela inesquecível página. A sua descrição era perfeita, rápida, verdadeira, poética. As comunidades que pertencia, todas, eram alternativamente inteligentes. Não podia ser real, relutava em babar diante de uma máquina ultrapassada, uma máquina que hoje vale 200 reais a muito pau e a muita corda. Tudo em vão. Naquela altura, meio maço de cigarros já pairava na atmosfera. Mas faltara algo. Sim, as fotos. Deixei naquela luminosa noite de quarta feira, propositalmente, suas fotos por último. Sabia que seria o clímax.
Orgasmo para as retinas. Eu não vira nada igual.
Seus olhos eram verdes, não, eram castanhos, não sei, eles mudavam de cor de acordo com a luminosidade de cada fotografia. Seus cabelos eram deslumbrantemente negros, brilhavam como os raios de sol cortando a mata virgem. Sua pele tinha uma cor de madeira nobre, a mesma cor da minha cuia preferida para fazer chimarrão, nas manhãs de sábado. Em transe, verifiquei que havia um novo e-mail. Não. Não podia ser verdade. Sim. Eram palavras produzidas por ela para mim:

“Desculpa, eu sei que não te conheço, mas tomei essa liberdade, pois te achei super bacana. Obrigada. Bju, Joana”

Ela já estava mais que aceita, há horas.
No outro dia, uma cinzenta quinta feira, ela, a Joana, já não pertencia a minha rede de amigos. E nunca mais ousou um contato.
Por quê?
Porque certas coisas são executadas por motivo de força maior.



Ah, namorada... ( quero tanto separar sua cabeça do seu corpo)

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Todas as calcinhas deveriam custar mais de dois mil dólares



Elas estão enganadas em comprar vestidos caros...


Jóias e sapatos não significam nada...



Pensei em escrever exatamente o contrário: todas deveriam custar no máximo 20 centavos. Elas não passam de olhares íntimos, só a mãe, a amiga e quiçá o irmão conseguem vê-la em movimento. Com atribuir valor a uma obra, já que o social não pode apreciá-la? Eis o engano: ela é o momento máximo, ela é o orgasmo para os dois glóbulos oculares. E não estou falando dessas que aparecem em desfiles, essas são falsas, não possuem calor. Estou falando de uma situação de uso, de uma singular ocasião. Elas são o canudo da cerimônia. Emoção.
O momento mais aguardado pelo outro é quando a mulher retira a penúltima peça do corpo, por que a última é ela, a calcinha. E a vista é deslumbrante. É a constatação de que todo o esforço até ali não foi à toa. Como será que ela é, de que cor, mais estreita, menos estreita, e o material, é algodão, é seda, possui babados, ela é como?
As respostas estão agora na nossa cara.
É só relaxar e contemplar a beleza da peça mais preciosa que uma mulher veste.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Self


Desculpa. Preciso dar um tempo de ti. Não estou ligando – agora - para a tua sinceridade. Eu sei que tu és e sempre foste firme nas tuas posições. Tu sempre sentiste minhas angústias, ouvindo minhas inseguranças e me fazendo sonhar, quando a tristeza invadia minha caixa torácica.
Mas agora preciso ir lá, quem sabe eles enxergam o que eu não consigo (ou não quero) enxergar.
Deseja-me boa sorte, espelho querido.


Eta povo arretado, o brasileiro.

Algumas paradas


Sabe quando a gente bate o olho numa parada e essa parada começa a dizer algo diferente pra gente? Pois é, foi o que aconteceu com esse tênis.
Eu gostaria tanto de tê-lo!
Um dia, quem sabe um dia...

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Tesão é a força motriz


Descobri por que xingo minha namorada. E não foi pela cadeira cursada de psicologia ou pelos filmes tantas vezes alugados. Agora consigo perceber o porquê de querer impressioná-la, de me mostrar inteligente e perfumado. Consigo entender sua súbita irritação, seus olhares de poucos amigos, seu beiço torcido, quando faço um comentário inconveniente.
Eu não me importo se estou cheirando mal, quando estou com meus poucos e verdadeiros amigos. E adjetivos como inteligente, perfumado, compreensivo, prestativo, não dizem absolutamente nada, na ausência do momento íntimo. Mas esses mesmos adjetivos são a glória, quando saem entre os dentes de uma única boca feminina.
Não me importo se minha mãe – com toda a sinceridade do mundo - diz que sou chato ou se o professor que mais admiro duvida da minha capacidade intelectual. Não dou bola para o entrevistador, quando ele, generosamente, avalia que meu currículo está aquém das pretensões da empresa.
Não quero desconsiderar os outros sentimentos, justificando apenas um.
É que não sinto tesão por essas pessoas.
Tesão é a força motriz dessa história vivida somente entre dois.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Os bons não param de correr


Os dois estão buscando uma melhor concentração. Sabem que a tarefa não é fácil. A preparação foi intensa. Horas a fio de muito treinamento consciente. Quando estamos sós, somos só lucidez, disciplina, cautela. Por isso, colocamos a vitória num patamar excessivamente alto. Vivemos demais o nosso corpo, os adversários, a competição. Estudamos, desnecessariamente, a história de cada um, afinal queremos a certeza do ótimo desempenho.
Somos atletas olímpicos e temos de nos comportar como tal. Disseram isso. Ela se preocupa com as outras nove que estão na pista, além de sua maquiagem. Quer demais derrotá-las. Ele está com medo de encarar o favorito e sente inveja de sua aparência, que é ótima.
Cadê o seu amor pela profissão e sua alegria de saber que fará o melhor? Ela prefere esconder o jogo, diz que um terceiro lugar é satisfatório. Sua fala não corresponde ao seu real desejo.
E quando está perto do tiro, às veias dilatam, a adrenalina trabalha, o corpo prepara-se para a possibilidade da derrota. Então, muitos não aguentam esse momento e desistem. Outros, porém, sabem da importância de ir até o fim, não têm medo do pior, querem algo a mais em suas carreiras.
E geralmente, esses que não desistem experimentam a gostosa sensação de por os pés no lugar mais alto do podium.
Contrariando todas as previsões.

domingo, 16 de agosto de 2009

A convicção de Usain Bolt


Suas caras e bocas não são à toa. Seu ar de deboche e seu jeito engraçado de ser, não possuem um caráter depreciativo para com os outros. Eu não engulo essas historinhas da imprensa, quando desponta um astro. Querem justificar o êxito com explicações bobas. O sucesso dele tem um significado pra mim: convicção. Esse jamaicano tem. E quando a convicção sopra em nosso ouvido, as pernas pisam mais firmes, as mãos falam entre si, nossa caminhada é mais certeira. Convicção não é sinônimo de vitória, ela é a alegria de fazer algo, amor pela realização, sentido para os nossos movimentos.
Usain Bolt.
Convicção em passadas largas.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

K-PAX na madruga da plim-plim


Certos filmes não cansam as minhas vistas. E poucos têm esse poder comigo. Na madrugada de hoje, cansado depois de uma formatura, ligo a TV – num volume bem baixinho – para me ajudar no sono. Bobagem. Tive de ajeitar os meus dois travesseiros e buscar os cigarros que estavam na cozinha. Os cigarros são como pipoca, para os não-fumantes entenderem. Prot, o protagonista, já estava no meio do seu relato, infelizmente. Não importa. Puta filme! Religião, astronomia, filosofia, psicologia. Tudo isso inteligentemente amarrado numa trama ficcional.
Eu não sou um entendido na matéria, mas minha alma masculina, com um pouco de sensibilidade, faz-me captar esses diálogos. Metáforas inteligentes, coisas legais que saem da boca de Kevin Spacey e Jeff Bridges.
obs:por vezes, sinto-me um pouco de lá, um pouco k-paxiano.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

O poder do barraco


Não adianta dizer que não assisto à novela. Será que alguém vai acreditar? Só os próximos sabem que não assisto. Fui impedido de assistir um jogo da segunda divisão do campeonato brasileiro. Ainda bem. Quando me disseram o que iria acontecer, na novela, não resisti à tentação. Apertei com o dedo indicador o numero seis, fiz um chimarrão e pus a almofada no sofá. Era um acontecimento tipo Apollo 11. Todos estavam esperando. Foi impressionante. O suor amargo dando brilho ao rosto de Abel, suas babas largas voavam sobre a cabeça daqueles que testemunhavam à cena. Seus olhos castigados. E a Norminha? Não sabia o que fazer, para onde olhar, suas peças íntimas ao léu. Um misto de vergonha e vaidade.
Todos esperavam tal fato, todos esperavam o barraco.
E não importa se o barraco é encenado, as pessoas gostam de vê-lo.
Inclusive eu.

Implicações do cotidiano universitário: no máximo em fotos

Por quê? Por que eu não quero ver ninguém da faculdade?
Meus colegas? Não.
As gurias? Também não.
As gurias mais bonitas? Dói-me dizer que nem essas.

Os professores? Tá doido!!

domingo, 9 de agosto de 2009

1500 por mês e as paredes de papelão


Foi o que vi. E me entristeci. Hoje, na televisão, vi jovens de 12 e 13 anos sendo levadas a salões de beleza para dar um trato no visual. 12 e 13 anos. E não era pouca coisa. Aparelhos sofisticados fazendo barulho sobre rostos ainda em formação, maquiagens pesadas em olhos inocentes, profissionais em volta, dando assistência. Não havia amiguinhos e conversas de adolescentes. As conversas eram de gente grande. Elas diziam que era importante, que a aparência é importante. Suas mães? Elas riam diante daquele quadro deprimente. 1500 reais por mês para ser refém de um padrão estético. 12 e 13 anos. Com esse dinheiro dá para pagar uma viagem, dá para matriculá-las num curso de língua estrangeira, dá para investir um pouco mais na intelectualidade.
Tudo bem.
Eu sei que não tenho nada a ver com isso.
Eu sei que o dinheiro não é meu. Mas eu sei também que, em outro programa, minutos depois, a repórter mostrava a favela em profundidade, mães criando seus filhos a duras penas, morando em casas com água pela canela, protegidas (protegidas?) por paredes feitas de papelão.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009


É que hoje faz 55 anos que Carmem Miranda se foi. Felizes aqueles que puderam dançar embalados por seu samba de altíssima qualidade. Até os estadunidenses renderam-se. Talento estrondoso, corpo hipinotizante, rosto lindamente expressivo, com malicioso gingado brasileiro.
Artista.
Perfeita.

domingo, 2 de agosto de 2009

Saleta a dois


Estamos no sofá. Como não estou em casa, fico sempre do lado direito, o lado da estufa. A visita sempre goza do que há de melhor na casa. Não adianta dizer que sou daqui. Não sou. Aqui eu não como arroz com feijão, não descasco bergamota no sol, não dou palpite sobre a cor das cortinas, não passo desinfetante no piso, eu não saio na chuva para por o lixo na grade.
Aqui, a minha casa és tu, o sofá e a estufa.
Aí eu me conecto. Aí damos um outro significado para a saleta.
Ela é outra quando recebe a parentada no domingo. Ela ouve gargalhadas e conversas sobre dinheiro, no domingo. As mãos em movimentos desordenados. Na quarta à noite, porém, ela ouve risos tímidos e cochichos sobre trocados. Queremos apenas o suficiente para fazer um chocolate quente. Faltam-nos apenas os ovos para o merengue. Nossas mãos obedecem à geografia dos nossos corpos. E quando aparece alguém, na saleta tímida, fico com ciúme. Ela não quer interferência, eu sinto. A TV apresenta chuviscos, a estufa não fica mais tão vermelha, eu preciso sentar como numa entrevista de emprego.
Não perca tempo com esforços mil.
Só me sinto em casa, quando a saleta somos nós dois.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Ateu


arte de Iotti


Eu já levei a sério. Parei de ir a universal e agora estou com todo meu salário no bolso. Não visto mais terno e gravata e não aperto mais campainhas. Não faço mais discurso. Aposentei o meu tambor e comi todos os galos pretos que estavam no meu pátio. Quebrei minhas agulhas e desmanchei os bonecos. Rasguei minhas apostilas que traziam passo a passo os movimentos dos mantras. Não leio mais Alan Kardec. Não assisto mais a Record de madrugada. Estou com o cabelo e a barba grandes.

O trinômio água-sabão-máscara é agora a minha religião.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Milhares de composições num único movimento de rotação


Eu nunca matei aula de geografia. Meus colegas diziam-me que as gurias estavam no pátio esperando por nós. Resistia à tentação. Por isso, aprendi que o movimento que a terra faz em torno do seu eixo chama-se rotação. Eu sei também que se trata da mesma rotação que o vinil ou o CD ou o dvd fazem. Todos nós somos interpretes. O que os habitantes da Terra fazem durante 24 horas em 365 dias? Fragmentos de composições jogados no cosmos. Ontem, por exemplo, quando fazia amor, cantava o créu na velocidade cinco. Jantando, lembrei-me de “resto do mundo”, composição de Gabriel, O pensador. Quando jogo futebol, um programa de auditório vem à tona em minha imaginação. Eu estudei Freud e Alan Kardec, por isso sei que todos fazem isso. O primeiro me disse que são os impulsos e os sentimentos reprimidos ingressando no compartimento chamado consciente. O segundo me falava de manifestação natural da alma, esta constituída de corpo mais espírito.
Isso não importa muito.
O que importa é o que Albert Einstein falou: as partículas viajam numa teia feita de tempo e espaço.
Esses fragmentos de notas e melodias e arranjos estão em perene viagem.
Universo a fora.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

A travessia


A organização social precisa deles, os representantes. Existe o do bairro, o do clube, o da escola, do município, da cidade. Existe também o representante de um estado e até de um país. O planeta, porém, não. Não existe um para o planeta. Não tem como nomear alguém para exercer esse mandato. Mas há 40 anos, o planeta Terra teve o seu representante. A ninguém, na história, foi dada tamanha visibilidade. Nem os Romanos, nem os homens que passaram pela Casa Branca, nem aqui e nem na China alguém experimentou essa notoriedade galáctica. Um planeta parou para vê-lo. Os outros astros também: Sol, Vênus, Mercúrio. A própria Lua cedeu espaço para o seu discurso:

- Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para humanidade.

Não importa de onde viemos ou para onde vamos depois da morte, o que importa é até aonde podemos chegar, a travessia, a terceira margem do rio.

sábado, 18 de julho de 2009

GRENAL, 100 anos de

São 73 anos para descobrir manifestações individuais. Literatura de esportistas. Arquivos da RBS e da TV Glogo. As belas histórias que começaram com meu pai, aqui em casa, e continuam com Lauro Quadros e Ruy Carlos Ostermann. O pensamento poético, humorado e bem articulado de Paulo Sant’ana. O trabalho com a linguagem de L. F. Veríssimo. As locuções eufóricas de Pedro Ernesto e Aroldo de Souza. O entusiasmo do Rio Grande.
Desses 100 anos de clássico, 27 deles eu vivo na pele essa emoção. E também tenho lá minhas histórias. A minha primeira ida ao Beira –Rio, na década de 80, para ver o Grenal e um fenômeno de azul, o Dener. O inesquecível Grenal de 5 a 2 para o Inter em pleno Olímpico, com show de Fabiano. A conquista do campeonato gaúcho pelo Inter nesse mesmo ano, no Gigante. Foi muito gosto estar lá nesse momento. Enfim, há 73 anos que invento emoção, mas há 27 que me deixo levar pelas sensações dessa polarização gostosa.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

A mim só um boneco


Angustiava-me ver meus amigos com uma gama de miniaturas. Eu sentia isso. Era chato. Quando a brincadeira mudava de palco, eu não tinha muitas possibilidades, aliás, eu só tinha uma possibilidade. Mas ao mesmo tempo em que eles, os meus amigos, tinham muitos heróis, não sentiam por eles carinho, reconhecimento. Eu, no entanto, dava todos os meus créditos a ele, ao Homem de Ferro. Foi o único boneco que mamãe comprara pra mim. Não vivi com o homem-morcego ou o fortão verde ou o todo poderoso de capa vermelha. Estes, só via pela televisão. O Homem de Ferro era mais que um herói, ele era meu ouvinte. Um ouvinte particular.
Por isso que quando tiver meu filho, vou presenteá-lo com apenas um boneco, um herói. Quero vê-lo sentir o que seu pai sentira, na ausência de tantas celebridades mudas, na presença de apenas um ídolo. Único ídolo amigo.
O filme é fruto de um telefonema meu.

domingo, 12 de julho de 2009

A arte da sedução


Eu jamais imaginaria. Era madrugada de sábado para domingo. O show de Roberto Carlos em comemoração aos seus 50 anos de carreira era apenas a introdução para o romance daquela madrugada, era apenas as notas marginais que preparariam o clímax da história. Havia muito mistério em sua face, o comportamento dela estava diferente, nossos diálogos, aqui em casa, não passavam de três travessões.
Quando chegamos lá, na suíte, tive de aguardar no carro por alguns bons minutos. Fazia muito frio. Por que devo esperar no severo inverno de Satolep? O tempo está rolando! O combinado era de eu ingressar somente depois do toque no celular. Eis o toque. Fui, cheio de timidez, mas fui. Abro a porta.
Para minha inesquecível surpresa, o quarto estava maravilhosamente bem decorado. Era tudo de um bom gosto. Era uma produção meio ‘caminho das índias’. Havia velas por toda parte, todas em formato de coração. Elas flutuavam sobre uma água quase invisível. Na cama, trufas de diferentes sabores formavam uma figura geométrica, uma espécie de misticismo erótico. E no centro da cama, milimetricamente entre os dois travesseiros, uma garrafa de champanhe que trazia no rótulo: Gotas de cristal, além das duas taças. Duas belas taças.
Mudo, eu fiquei.
- Achei que a ocasião merecia, fiz isso pra nós.
- Está... está... Lindo!

Risos de ambos, estouro na saída da tampa, brinde, uma breve reflexão dos últimos 90 dias e...

O final pertence ao autor.

obs:
O que ela vai fazer quando completarmos 1 ano?

sábado, 11 de julho de 2009

RC 50



Eu entrei em êxtase. Eu sei que ele não é da minha geração, aliás, ele não é só da minha geração, os que têm vinte e poucos. Ele é da geração dos que têm 10, 20, 30, 40, 50, 60... E consegue deixar em êxtase todas essas pessoas, todos que apreciam uma música poética. Além de um talento absurdamente grande, alia-se a isso um trabalho técnico perfeito, fantástico. A chuva, que parecia atrapalhar, na verdade, veio para acentuar o poder da arte, da expressão.
E todas as histórias de bastidores, as preferidas cores azul e branca, as manias, as exigências, tudo isso encaixa-se perfeitamente na configuração do espaço da corte, aqui no Brasil, uma única corte. Um carisma que hipnotiza multidões.
Um carisma que só os reis não se atrapalham.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Até hoje não...



Isso já faz um tempo.
Eu mal havia chego da praçinha. Estava suado, mas esqueci de tudo, tudo não importava mais pra mim. O banho que antecedia a janta, os temas, os desenhos da TV Manchete, tudo era banal, comparados ao evento. Eu não escutava uma única voz naquela peça. Só a televisão. Era para ela que canalizava minhas energias. Havia algo de sobrenatural naquele quadrado colorido. Lembro-me que me curvei diante das cores e do brilho que chegavam a minhas pálpebras. Até hoje não entendi o que aconteceu comigo, até hoje não entendi o que a televisão, naquele exato momento, estava exibindo. Até hoje não sei o que me tomou atenção naquele fragmento de tempo e espaço.

sábado, 4 de julho de 2009

Agora com mais leveza


Agora eu posso dizer isso. Há tempos que não passava por uma semana turbulenta. O RS passou também por uma semana turbulenta. Pânicos com a gripe A ou seria Suína? Fracassos de azuis e vermelhos. Eu senti muito o fracasso dos vermelhos. Mas senti também o fracasso dos azuis. E senti medo de fazer uma prova. Há tempos não acontecia isso. Aluno não pode sentir medo de prova, aluno tem de sorrir para a prova. É a derradeira hora de dizer: eu sei tudo, aliás, eu sei mais que tu, professor tolo. Eu ria pelos corredores universitários para maquiar a aflição. E se não bastasse, excessivas reuniões com colegas não menos apavorados, trabalhos sendo feitos aos trancos e barrancos, regados a discussões ásperas. Clima tenso na minha sala e no severo frio de Satolep. Eta semana maldosa, essa que passou.
Agora posso respirar, agora posso baixar a voltagem e voltar a gozar de uma namorada, da minha lareira, de uma prova, dos meus colegas. Agora posso voltar a torcer, sem xingamentos, pelo meu time do coração, os vermelhos.
Agora com mais leveza.