Não sei mais coordenar os movimentos do meu pulso. Transferi a faculdade da compreensão para os dedos. Transferi para a luz a responsabilidade de carregar minha consciência. Perdi o olfato do papel.
Eu não tinha percebido. Eu já não me comunico com romantismo. Para falar o que penso com precisão, preciso de cigarros, de chimarrão, de fritura, do escuro. Comunico-me melhor no escuro.
Comunico-me melhor no ruído. Substituí o silenciador que há na ponta do lápis pela bateria de um teclado velho e sujo. Desprezei o amor da borracha, que doava um pouco de si para consertar meu erro, pelo Backspace. Não uso com a mesma habilidade as cores azul e preta.
Nunca impressionei uma mulher por uma carta. Nunca recebi um elogio caloroso pelo formato da minha letra. Só me diziam que ela era fofa. Era pouco. Só me frustrava.
Agora é diferente. Agora me elogiam. Com insinuação. Falam bem da minha aparência, da minha roupa, da minha barba. Não se importam mais com a estética da minha letra. Nunca mais ouvi que ela é fofa. Ouço que ela toca.
Minha praia agora é outra. E minha frustração agora é não ter vivido o romantismo de uma confidência aguardando na frente da casa. Sob a porta. Sobre o tapete.

