sábado, 10 de abril de 2010

Minha praia agora é outra





Não sei mais coordenar os movimentos do meu pulso. Transferi a faculdade da compreensão para os dedos. Transferi para a luz a responsabilidade de carregar minha consciência. Perdi o olfato do papel.

Eu não tinha percebido. Eu já não me comunico com romantismo. Para falar o que penso com precisão, preciso de cigarros, de chimarrão, de fritura, do escuro. Comunico-me melhor no escuro.

Comunico-me melhor no ruído. Substituí o silenciador que há na ponta do lápis pela bateria de um teclado velho e sujo. Desprezei o amor da borracha, que doava um pouco de si para consertar meu erro, pelo Backspace. Não uso com a mesma habilidade as cores azul e preta.

Nunca impressionei uma mulher por uma carta. Nunca recebi um elogio caloroso pelo formato da minha letra. Só me diziam que ela era fofa. Era pouco. Só me frustrava.

Agora é diferente. Agora me elogiam. Com insinuação. Falam bem da minha aparência, da minha roupa, da minha barba. Não se importam mais com a estética da minha letra. Nunca mais ouvi que ela é fofa. Ouço que ela toca.

Minha praia agora é outra. E minha frustração agora é não ter vivido o romantismo de uma confidência aguardando na frente da casa. Sob a porta. Sobre o tapete.

domingo, 4 de abril de 2010

Tímpanos femininos



Adoro meus amigos. Adoro mesmo. Mas o que sinto agora não tem nada a ver com o sentimento que tenho por eles. Tem a ver com a companhia deles. Não aguento mais a companhia deles.

 Divertimos-nos à beça quando estamos num bar, por exemplo. Rimos muito. Cada qual expõe seu gosto corporal, intelectual. Divergimos sobre as mulheres. Concordamos sobre as mulheres. Concordamos. Concordamos.

Concordamos também quando o assunto é futebol. Reconhecemos os craques de cada time sem muito esforço. Palpitamos sobre o futuro das competições, dos clubes. Brincamos de cartolas.

Quando é carro, cada um manifesta seu sonho de consumo sem nenhum pudor, sem medo de possíveis críticas. E acatamos sugestões. Sempre tem um que pesquisou melhor na semana.

Aprendemos quando estamos juntos. E é maravilhoso. Mas o que quero expressar é que não aturo mais isso. Rir muito vulgariza o humor. Concordar muito violenta a individualidade. Aceitar muito suscita o cinismo. Preciso de outra companhia.

Desejo tímpanos femininos. Quero discordar com insinuação. Quero rir com insinuação. Quero por em prática a inteligência do corpo. Quero me reservar o direito de impressionar mulheres. Com isso, terei um outro tipo de retorno.

Do retorno masculino já estou cheio. Os tímpanos masculinos já não me atraem mais.