sábado, 26 de dezembro de 2009

Só no osso, em nome do amor.


Eu que botava cegamente nos braços, no pescoço, no peito. Era mais que religião pra mim. Deixava de conversar com uma gata porque não estava devidamente protegido. Sob um sol escaldante, não beijava ninguém em nome da minha saúde. Achava que vivia de forma saudável.

Pois soube, por fonte quente, que sempre fui enganado. Tiraram de mim, ou melhor, da minha adolescência a oportunidade de aquisição de experiência contundente, em matéria de sexo.

E o que é pior: segundo entendidos, alguns contêm substâncias cancerígenas! Nossa, a mensagem que Pedro Bial divulgava nas rádios desse território – e comovia muitos - não passava de falácia, de charlatanice.

Agora vou me queimar cegamente. Sem camada de ozônio e sem filtro solar, vou beijar até ficar só no esqueleto. Eu e ela queimando sob a luz escaldante. Os veranistas, diante da ocasião, anunciarão em plena avenida:

- Olham lá, aqueles dois ignoraram tudo!
- Aqueles dois morreram queimados pelo amor!

E nossa relação ganhará repercussão internacional. Ficaremos, por muitos dias, no topo da lista dos vídeos mais assistidos no You Tube.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Vaidade inconveniente


Não pude evitar. A árvore estava na sala, ao lado do televisor, linda. Os presentes decoravam a estante. Luzes e mais luzes. E ruídos de fogos. E nós dois. Desferi as tais palavras.

Elas me incomodavam. Não suportava mais elas acumuladas no meu gogó. Pensei e pense e pensei. Mas devia de falar, não tinha jeito. Ou falava ou o ano subseqüente ficaria manchado.

- quero me separar!
- hahahah, que brincadeira de mau gosto, respondeu.

Paramos por dois minutos num flerte assustador. Não havia clima pra mais nada. Mesmo sabendo das consequências, não controlei o ímpeto da minha vaidade.

Sempre levei a risca o conceito de ser feliz. E estar ao lado dela – naquela altura - era estar muito longe disso. Era uma traição dupla. Os dois corações precisavam saber, não havia mais tempo.

Lembro-me que dormir na sala do meu amigo, naquela noite, foi pior do que produzir aquela sentença na sala. Foi muito pior. Por que não agi antes? Por que posterguei a proposta do meu coração?

Nunca fui tão inconveniente num dia só. Nunca fui tão provido de vaidade numa noite. Estraçalhar uma ocasião assim, com apenas três palavras.
Verdade é que aprendi a ser mais humilde.
Mas ela nunca mais olhou na minha cara.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Eu queria ser cartola


Sentado, só, numa sala privilegiada. Nela, apenas meu uísque e meus cigarros. E o celular: que não para! Preciso desligá-lo. Torcendo como torcedor. Sofrendo como um apaixonado.

Só durante os noventa minutos. Depois, deixo a porta ser aberta, permito interrupções e palpites. E xingo, e emito opinião sobre tudo e sobre todos. E deixo minhas dependências para ir até o campo e insultar o árbitro.

A torcida espera isso de mim. Os jogadores que eu contratei e que pago me seguram pelo paletó. Meu rosto é boxeado por microfones, minha voz é articulada, minha voz é inconveniente:

- ele é um safado!
- ele é um safado!
- isso sempre acontece conosco!

Semana cheia. Programas e explicações sobre tal ato. Repercussão nacional. Internacional. Puxam minha vida em revista, expõem minha trajetória. Explicam como me tornei o cartola maior.

Não sei vocês, mas eu vejo um quê de poético nisso tudo. Um espécie de ator, de moleque deslumbrado com o posto que ocupa. Alguém com privilégio de expor sua irracionalidade, sua paixão em rede nacional.

Eu queria ser cartola.