domingo, 12 de dezembro de 2010

Deslocamento do status



Quando ele chegou à porta da boate, de conversível, boné e jeans bacanas, imaginei que sua noite seria um estorvo para os homens. E foi. Ingressou sem pagar, subiu ao mezanino e pediu uma garrafa de uísque.

Passadas algumas músicas, lá estava o cara ao pé do olvido daquela morena.  Ambos riam escancaradamente.  É claro que está agradando-a, concluí.

Fiquei imaginando como devem ser as noitadas daquele carinha. Muitas morenas rindo pra ele.

Desisti de observá-lo e resolvi fazer a minha festa. Decidi ser adulto antes que me viesse um complexo de inferioridade juvenil. E curti. Curti!


(...)


Cansado e suado, aquela era minha última ida ao banheiro. Eis que, no corredor de acesso, deparo-me com a morena, aquela, linda, que sofria o assédio de, talvez, o cara mais bem-sucedido da casa.

Mas não era o carinha. Era um cara, que, sorrindo, punha um pequeno pedaço de papel em seu bolso, enquanto ela, também sorrindo, guardava uma caneta na bolsa florida.

Supus que fosse seu E-mail, seu Messenger sendo posto no bolso daquele cara com um jeans bem mais modesto que o meu.

Mijei perplexo.
Mijei fora do vaso.

O cara ingressou rindo, abriu seu zíper, e eu não resisti: te desse, hein?!

- Velho, vi que ela tava queimando um magrão metido, me aproximei, pedi uma caipira e nós ficamos de papo a noite toda. Até sobre arte a gente conversou.

domingo, 21 de novembro de 2010

Silvério meu narrador


Preciso prestar mais atenção nas palavras que saem da boca do Silvério direcionadas para mim. Hoje a tarde, percebi que ele é a pessoa que melhor me conhece.



O Silvério é meu amigo. E espetacular em informática. O Silvério mexe no meu computador há quase dez anos. O Silvério sabe melhor do que todos o que se passa no meu HD.


Os poemas singelos confeccionados para minha mãe. Os poemas bobos feitos para algumas meninas. As fotos pescadas na internet. Nos orkuts femininos. O meu gosto musical. Minhas conversas no msn. Meus textos impublicáveis.


Nem minha mãe tem acesso a isso.


O Silvério tem.


Hoje a tarde, a constatação: quando queria saber sua opinião sobre as minhas chances com uma menina da faculdade, assim, despretensiosamente, ele, com segurança, ponderou:


- Olha, tens tudo pra te dar, ela te dá moral, presta atenção no que vocês conversaram aquele dia.


E riu afetuosamente.


Fingi naturalidade. Senti generosidade. O cara me falou com uma segurança pacificadora, com uma convicção poética. Eu vi!


Ao adentrar o meu HD, Silvério recebe o devido poder de me guiar. Sem o sofrimento na carne, apenas com sua focalização totalizadora em mim. Como meu narrador onisciente.

sábado, 6 de novembro de 2010

++ ou - -


Uma semana sim: uma mensagem é passada. Ela é respondida. Uma outra mensagem sofre o mesmo processo e os dois já se vêem entre beijos, carinhos e breves relatos sobre os últimos dias de cada um.

Uma semana não: uma mensagem é passada. Ela é respondida. Outra mensagem agora é retrucada e os dois já se vêem entre argumentos, ênfases e trejeitos em nome da razão. Ainda assim, no final do encontro, há um desvio na corrente que permite um beijo carinhoso.

Uma semana não: uma mensagem é passada. Ela é respondida. Outra mensagem é passada. E respondida. E mais outra. E ambos se vêem entre perguntas e respostas. Praticam, pessoalmente, bebendo cerveja e olhando os transeuntes da noite, uma conversa de mensagens.

Uma semana não: uma mensagem é passada. Ela é respondida.

Uma semana não: uma mensagem é passada.

Uma semana não: uma mensagem é respondida.

Uma semana não: uma mensagem é passada. Ela é respondida. E o processo se repete por mais algumas vezes.

Uma semana não e não: uma mensagem é passada já contendo uma resposta. Outra mensagem é passada já contendo uma resposta. E nossas energias impedem o fluxo da corrente. Não há, entre a gente, a alternância do sim e do não como uma relação exige. O que ascende o sentimento é dedicação. E dedicação é ganho. E é perda. A dedicação mantém ambos ligados e atraídos. E isolados, no sentido positivo do termo.

 Nossas energias nos repeliram, no sentido deprimente do termo.

sábado, 30 de outubro de 2010

Sangue Anunciado


Sempre mantivemos o amor pelo futebol. O futebol entre amigos. Todas as sextas, nós, um grupo de oito peladeiros, levávamos aquele momento mais a sério do que qualquer outro momento. Tão a sério que, passadas horas depois do jogo, ainda havia espaço para a celebração da parceria já fatigada.

E celebrávamos nosso encontro na casa de massagem que nos era mais acessível. O Bangalô (cinco estrelas no ramo) nunca passou de um sonho coletivo.

Já sabíamos, pelas constantes madrugadas de sábado lá, o nome de todas aquelas dispostas a dar carinho com a menor taxa de juros da cidade. Éramos também amigos da gerente.

Um sexta, porém, nossa celebração se transformou em concentração. Um grau de concentração tão acentuado que, nunca, nem mesmo nos nossos jogos mais difíceis, fora visto. Naquele início de sábado, deparamo-nos com os piores atacantes. Os piores matadores.

Dois homens de aproximadamente 40 anos, ambos com cabelos e barbas grisalhos, fitavam-nos com um aspecto nada amistoso. Um bebia e fumava concomitantemente. O outro apenas bebia.

Tal fato intrigou a nós, mais precisamente o Tito, nosso parceiro mais velho e com mais prestígio na casa. Pois o Tito se levantou e foi até a copa, onde se situava a dona, a Preta. Perguntou-a porque aqueles dois caras nos encaravam de forma tão severa. A Preta não soube responder.

 Eis que o Jardel dá um grito:

- Vamo embora, os cara tão loco, os cara tão de gargalo na mão!!

Era sangue anunciado. Os homens vieram em nossa direção com um ímpeto de justiceiro. Descemos nos debatendo por aquela escadaria à meia luz para nunca mais subirmos.

Na sexta seguinte, quando todos nós já celebrávamos mais outro pós jogo, revelei o motivo daquela última madrugada de sábado trágica. Eu havia proferido impropérios para a moreninha da casa, sobrinha da Dona. Ela, então, jurou-me vingança ainda naquela noite.

Tudo acontecera por uma má feitoria minha.

Nessa sexta, não saímos para celebrar.

Os jogos também não aconteceram mais.

E eu decidi, naquela noite, voltar a estudar.

sábado, 16 de outubro de 2010

O histórico jantar



Já o vi como dançarino. Já o vi como advogado. Já o vi como gangster e militar. Já o vi como pegador. Todas essas facetas ele representou de forma brilhante! Ele me seduziu via imagem. E isso me levou a afirmar o seguinte:

- John Travolta, apenas ele no planeta, é o homem para quem não recusaria um convite para jantar a luz de velas.

Não sou gay. Acontece que minha sensibilidade masculina e minha maturidade de hoje me empurrariam para um algo a mais. Eu sairia com ele em busca de pretensões maiores.

E no jantar, apresentaria a devida resistência para deixar nítida a minha postura: a de um homem que não é fácil. Ele precisaria desenvolver muito bem sua trova.

Mas isso seria só um aspecto.

Mais importante para mim é que, depois desse jantar histórico, nada seria como antes. Minha vida alçaria um outro patamar. Meu xaveco ganharia em conteúdo.

Para seduzi-las, contaria detalhes sobre o jantar com o John. Revelaria suas investidas contra mim, seus galanteios e todas as vezes que tentou me beijar. E que recusei.

Depois disso, qual mulher, em sã consciência, não baixaria a calcinha pra mim?

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O lixo paterno



Li por aí que não devemos ficar presos no passado. Não sei ao certo em que medida essa afirmação influenciou minha atitude de hoje, mas promovi a maior limpeza já realizada no galpão da casa.

Galpão era como o meu pai chamava a peça que, via de regra, chama-se despensa. Aqui, a mãe e eu chamamos a despensa de galpão por uma convenção afetiva. Por uma arbitrariedade amorosa.

E quando o charreteiro chegou para o serviço meio aguardado, pedi para que entrasse e avaliasse o frete. Com um olhar por alto, proferiu num tom mediano:

- 15 conto e eu levo tudo!

Por um breve momento, considerei muito razoável o valor que aquele humilde charreteiro havia posto em seu serviço. Depois, achei uma ofensa os quinze reais. Ele pôs esse valor para transportar os objetos guardados pelo meu pai.

Mas na esteira das reminiscências, percebia também o meu papel de cúmplice em classificar os pertences do velho como lixo. Como estorvo. O charreteiro e eu queríamos ver todas aquelas ferramentas, fios, cordas, papéis e peças velhas de caminhão longe dali.

Meu pai tinha um caminhão.

Ele também tinha o hábito de guardar e guardar até quando fosse necessário. E sempre havia um momento em que ele entrava e saia do galpão com um objeto empoeirado, assoviando.

Mas eu estava pondo um fim a tudo aquilo.

E mesmo que a gente não deva ficar preso no passado, foi difícil perceber que hoje parte do meu pai e de mim se foi para um além, naquela humilde charrete.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Num domingo frio...

Eu suporto ficar de segunda a sexta em casa, fazendo nada além dos afazeres domésticos. Mas não suporto ficar o domingo em casa. Mesmo com o clima não muito convidativo, convido-me a romper com essa sonolência dominical.

O domingo em casa me incomoda. O domingo em casa é, para mim, um não-domingo. Ontem, no domingo, a tarde não estava lá essas coisas, mas ainda assim eu ansiava por uma saída.

Então, minha mãe, vendo o meu sofrimento e também sofrendo do mesmo sentimento, convidou-me a romper com aquilo. Já estava no início da noite, não havia muitas alternativas:

- Vagner, que tal a gente ir ao big?
- A gente pode ver gente!

Por alguns segundos pensei num possível prazer em tal programa. Lembrei-me, então, que não tinha nenhum centavo no bolso. Aquele convite traria mesmo diversão? Será que ele não me conduziria a frustração?

A frustração de não poder possuir uma LCD com mais de 20” para assistir os filmes do Tarantino em minha aconchegante sala. Ainda assim, aceitei. E foi ótimo!

Depois de passearmos por todos os corredores, no apagar das luzes, literalmente, recebo um olhar fulminante da morena dos frios. Sim. A moreninha responsável pelos queijos que mais adoro olhou-me de uma forma reveladora.

Olhei-a da mesma forma. Tal encarada mútua durou alguns estimulantes segundos. Minha mãe aproximou-se:

- Vamos?
- Já tô cansada.

No carro, o episódio não passou batido, minha velha perguntou se eu conhecia a morena de branco, responsável pelos derivados do leite. Respondi que ainda não, mas que ela tinha toda razão. Sem entender, pediu para me explicar melhor:

- No big, mãe, a gente pode ver gente.

Ah, a moreninha dos frios...

domingo, 12 de setembro de 2010

Infantil idade derrubada




Em plena madrugada, quatro homens e uma mulher debatiam as nuanças da paixão, relatavam seus amores correspondidos ou não. Até que, voltando ao presente, confessei-lhes que tinha uma professora simplesmente maravilhosa.

Expliquei-lhes que ela reunia virtudes de adolescente num corpo experiente. Todos riram de mim. Chacotearam a minha confissão. Tripudiaram as minhas observações. Desqualificaram as minhas impressões. Um deles, então, proferiu:

- Negão, eu me apaixonava pela professora quando era criança!

Foi-me dado um soco asfixiante no peito, com essa frase. Será mesmo que eu estava agindo como um guri? Será que estava revelando uma insegurança ou imaturidade, na medida em que ainda me impressionava facilmente por uma professora?

Até que, segundos depois, ela, a única mulher daquela saleta aconchegante, indagou-me:

- Mas ela é casada? Por acaso te informaste?

Mais um soco com o mesmo efeito chegava a meu corpo. Ela estava reconhecendo, com essas perguntas, a sinceridade de um homem. Ela estava legitimando o meu gosto. A única mulher presente entendendo um homem, afirmando uma incoerência gostosa.

Respondi-lhe que não, que mal sabia sobre sua vida. Ela reagiu com uma simples franzida de testa.

Voltei da reunião entendendo um pouco mais sobre a beleza da diferença entre os sexos. Voltei para meu mundo gostando ainda mais de uma companhia feminina, de como ela é importante para nós.

Voltei para casa gostando ainda mais da professora.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Pedreiro: aquele que trabalha com pedra e cal





Num passado não muito distante, o termo pedreiro designava apenas o profissional que trabalhava com pedra e cal, como a título traz. Como o dicionário traz. Aliás, sempre achei essa uma das profissões mais bonitas. Conseguia, com esse termo, fazer uma relação íntima com a realização de sonhos.

Hoje, o termo designa, também, uma pessoa que fuma pedra. Que fuma crack. Tal vocábulo, hoje, não me remete mais a realização de sonhos. Remete-me ao medo. Remete-me à tristeza.

A linguagem tem dessas coisas. O maconheiro, há alguns anos atrás, era entendido com vilão para muitos, mas era filosofia de vida para outros, era também curtição para muitos. O “pedreiro”, nesse contexto, (assustador contexto) não abre um viés para outra interpretação, infelizmente.

Resolvi escrever esse texto, e desde já assumo toda a responsabilidade, porque me incomoda o fato de ver as pessoas usando pedreiro para identificar aqueles que consomem essa droga. Minha mãe, quando viu um jovem no centro da cidade em condições lamentáveis, concluiu com essa palavra.

Eu não quero incorporar essa expressão ao meu vocabulário. E também não quero que o Aurélio dê mais uma acepção para esse termo. Chatear-me-ia ver esse verbete ampliado.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Cigarro intragável


Os fumantes têm por hábito formar um grupinho de fumantes para curtirem o tão gostoso vício. Qualquer fumante em companhia lembra qualquer mulher na boate quando vai ao banheiro. Essa duas classes formam grupinhos.

Na faculdade, a cada intervalo de aula, vê-se uma ótima oportunidade para atualizar os assuntos via nicotina. E quando esse grupo já possui alguma convivência, mais gostosa é a fofoca química.

Nos últimos tempos, o grupo do qual eu fazia parte se dispersou. O curso natural dos semestres me levou a pedir fogo para um estranho, a emprestar fogo para um qualquer.

Era tão gostoso quando eu levava para casa um marlboro avulso do Rafinha. Ele sempre me amparava na escassez. Era bom quando eu punha a mão no bolso do meu jeans e me deparava com o bic branco da Isabela. Com o cricket preto da Andréa. Havia fogo de sobra nessa parceria. 

E não havia aflição quando carregávamos por engano o aparato tóxico de cada um. Sabíamos que faríamos inevitavelmente as devidas devoluções no dia seguinte. Praticávamos um regime socialista do vício.

Hoje não acontece mais isso. Esses companheiros de longas reuniões estão no exílio de suas cadeiras. É como se cada um pertencesse a um partido, com dia e hora diferentes para reunião.

Quando comprava cigarros mais fortes, expunha para eles a dor que me causava na garganta. Eles, como bons companheiros, também relatavam suas
experiências com outras marcas.

Mas de todos que fumei, o mais intragável é o de agora. Causa-me uma dor no peito toda vez que dou uma tragada e vejo que não há mais ninguém em minha volta.

Não há mais ninguém da nossa roda

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Danço deitado



São duas e pico da manhã. O sono ainda está numa distância considerável. O filme que passa na TV não empolga muito. Nem o livro. Nem os torpedos que troco com a ficante (termo horrível) empolgam.

De súbito escuto a poderosa voz de um locutor da Globo anunciando os hits que enfeitaram e deram sentido as noites desvairadas da minha mãe, da mãe da ficante e de todos que viveram numa época que não vivi.

 As roupas que os artistas vestiam, as cores que as boates tinham, as danças que as pessoas faziam. As músicas que repercutiam. Suas vozes. E toda uma percepção me vem à tona:

- Ah! Essa é a Diana Ross! Michael Jackson era fã dela!
- A Gloria Gaynor continua bonita!
- O Kennedy com seu cabelo e seu sax é um brega massa!
- Que bota massa esse negão está calçando!
- Poxa, Abba! O pai do Orelha adora!

Eu aprendo história por esses comerciais.
Eu aprendo comportamento nesses comerciais.

Assistir a clipes inteiros que são exibidos na madruga já não tem a mesma graça desses comerciais. Eles são longos, portanto, chatos.

Esses comerciais coloridos têm a duração exata para não cansar. A exata duração para empolgar.

Essas propagandas de coletâneas antigas são convites para se dançar deitado.

E depois que assisto, depois que sinto o som, o ritmo, o comportamento das pessoas da década com a noite mais colorida da história, desligo a TV e recupero o fôlego para ler.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Deixa o Bicho

Para todos que gastam alguns minutos da vida nessa página



Eu sei que ninguém me obrigou a escrever esse texto e tampouco manter essa página perdida. É que às vezes me pego perguntando a mim mesmo: qual o sentido de manter um blog quando não há nenhuma razão profissional para isso?

Sei também que ninguém me implorou de joelhos para essa prestação de contas. Ela é indevida. Esse texto é atrevido.

Esse texto também é uma tentativa de deixar registrada uma percepção íntima minha: sinto uma necessidade brutal de me expressar. Não importa muito elencar aqui as razões que me fizeram concluir isso.

Eu poderia dizer que um dos motivos foi ter uma vida um tanto pobre do ponto de vista amoroso. Relacionamentos não correspondidos. Relacionamentos que não me deram tempo de me mostrar. Ou que esse blog existe porque os livros da minha estante me influenciam e oferecem matéria prima.

Ou poderia resumir que o algumas paradas só existe por uma facilitação tecnológica contemporânea de estabelecer algum tipo de comunicação mais abrangente. E que faz escutar o anônimo.

Todos querem voz e vez.

O fato é que essa necessidade asfixiante de me expressar impulsionada por uma vida “só” resultou nesses devaneios virtuais, nessas confissões banais.

O Capinejar já disse mais de uma vez que todo o texto precisa trazer confissão. Seus textos são confissões.

Deixa o Bicho, música de Nei Lisboa, diz num dado momento:

Tudo é caminho
Deixa o bicho
Tudo é vontade de acertar
(...)
Alguns edifícios por dia desabam dentro da avenida...

Esse blog é um caminho. E o que eu quero é acertar. Mesmo que algum dia esse edifício desabe dentro da avenida.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Bissexual por alguns instantes



Já tenho tudo articulado em minha cabeça. Todos os passos. Se o Inter for bicampeão da América, serei, por alguns instantes, bissexual. Beijarei o D’Alessandro na boca, mesmo com um forte aparato de segurança.

E essa queda pelo D’Alessandro começou desde sua chegada a Porto Alegre, quando vestia um boné branco e uma jaqueta de couro. Então pensei:

- Poxa, esse cara é diferente!

Na seqüência, essa admiração gay pelo D’Ale só aumentou com suas belas atuações, dando um salto de qualidade ao time do meu coração. Jogo após jogo, meus olhos eram quase exclusivos para o argentino, parecendo à namorada que acompanha o namorado nos jogos de fim de semana.

Esses dias, quase me entreguei. Assistindo o jogo do Inter com alguns amigos, e num nervosismo feminino, quase grito para a TV:

- Vai D’ Alessandro, gatinho!

Seria muito difícil para mim admitir, para os poucos amigos presentes, e difícil para eles aceitarem, naquela noite fria, que sinto uma queda pelo cabeçudo.

Contive-me.

E se não bastasse todo o talento diferenciado desse cara dentro de campo, percebi, desde sua chegada, que ele usa um piercing abaixo da boca, no canto direito. E que suas tatuagens são um tanto diferentes.

 Ora, tudo isso fez aparecer esse meu ímpeto e, então, concluí:


- Se o Inter for bicampeão da América, serei, por alguns instantes, bissexual. Beijarei o D’Alessandro na boca!

Babarei sua boca e seu Piercing.

domingo, 8 de agosto de 2010

Lisa



Era uma noite perfeita para se estar na rua, namorando. Fazia meia-estação, lembro-me que vestia um jeans surrado e uma camiseta totalmente branca. Ela vestia um vestido com estampas coloridas e diferentes. Ambos estavam estilosos.

Tudo se encaixava para o sucesso de um garoto com pouco mais de 17 anos: Uma guria bonita e mais velha querendo transar com ele sem muito compromisso, sem maiores satisfações.

A ansiedade me invadia o peito. Eu não era virgem, mas sua idade e sua postura tão natural minutos antes do ato, confesso, assustava-me. Nós estávamos prestes a transar em praça pública, poucos metros da minha casa.

Já era um fato consumado entre meus amigos tal acontecimento. Ela já havia anunciado que sentia verdadeira atração física por mim. Eu realmente possuía um corpo respeitável, com coxas e bunda salientes, segundo minhas amigas.

Depois de beijos, lambidas e abraços dignos, ela profere:

- Vagner, tô muito a fim de transar contigo, agora!

Aquela frase tinha sido a prova cabal de que eu estava me envolvendo, não com uma guria, mas com uma mulher, que tinha pulso firme, convicção.

Mas eu não estava, naquela noite de meia-estação, ainda pronto pra encarar aquele ímpeto fogoso e adulto.

Levantei meu jeans surrado segundos depois de baixá-lo.
Eu não funcionei.

Eis que ela me surpreendeu com as palavras mais lindas, doces e afáveis que já escutei de uma mulher num momento difícil como esse para o homem:

- Vagner, relaxa, acontece, talvez tenha sido culpa minha!
- Eu fui com muita sede!
- Eu te agredi!

Eu estava mesmo diante de uma mulher.

No dia seguinte, seguro de não revelar para ninguém detalhes daquela noite catastrófica, pois não suportaria tamanha gozação, ouço de um amigo fardado, nós estávamos em direção ao campinho:

- Bá, conseguisse o inédito, conseguisse broxar com aquela gata da Lisa!

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Viagem solitária



Hoje fez uma tarde fria. Só me faltava um bom lugar para ler um livro.

Não suportava mais o barulho dos carros na rua impedindo minha leitura de ‘viajante solitário’, de Jack Kerouac. Havia posto uma cadeira de praia verde na garagem. Minutos depois a recolhi.

Foi então que enxerguei um sofá velho, de um lugar, na peça contígua ao computador, que suportava tralhas e mais tralhas de minha mãe. Sacola com roupas de cama furadas, agulhas e linhas emboladas e desbotadas e uma espessa camada de pó envolvendo todo o móvel.

Removi tudo abruptamente. Passei um lustra móvel para que aquele objeto esquecido recuperasse sua dignidade. Dobrei e encaixei um cobertor xadrez por cima para que ficasse mais confortável. Mais quente.

Abri o livro. Eu estava na página 80. Ele, o Jack, relatava uma de suas viagens de trem pelos sertões estadunidenses. E descrevia maravilhosamente bem a iluminação do sol num fim de tarde.

Transcorridas algumas páginas, percebo o sol batendo em todo o meu corpo, envolvendo o livro e o móvel. O sofá estava exatamente na reta da única janela de ferro da casa. Essa janela tem vidros generosos.

Percebi, então, que aqui, na minha casa, existe um lugar maravilhoso para se viajar solitariamente.

Eu havia feito, nessa tarde fria, muito mais que uma descoberta.

sábado, 31 de julho de 2010

Reflexões involuntárias provocadas por Tom e Jerry



São exatamente 3; 26 da manhã. Sem sono, pra variar. Nem uma leitura está funcionando. Recorro a tv. Nada de tele cine cult ou documentários sobre o futuro do planeta. Quero algo que não precise pensar muito.

Boa ideia: Cartum. O Cartum me ajudará a dormir. Está dando Tom e Jerry. Ótimo. Já vi esse episódio mesmo. É aquele em que o Tom resolve, pra variar, futricar na vida de Jerry e descobre um livro que relata algumas passagens cômicas dele Tom.

Então, ele fica puto da vida quando percebe que o livro faz o maior sucesso e detona gargalhadas em série pelo vilarejo.

- Meu deus!
- Não paro um minuto de pensar!
- Como sou parecido com o Tom!

Esse ímpeto que o Tom tem. Essa vontade sempre egoísta que transforma a razão. Essa vagabundagem sedutora. E malandragem idem. Escandaloso nos gritos. No fundo, ele ama demais demais o Jerry. Ninguém me tira isso de cabeça.

Eu amo demais a dificuldade. O não que persiste. Dou pauladas no percurso. Levo pauladas no percurso. Tenho medo de certos cachorros. Grandes cachorros. Bolo planos arriscados. Às vezes acerto.

 E quando conquisto, sinto muita vontade de brindar e apertar e rir e curtir a quem desejo comer. 

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Desbloqueio



Somos dois aqui em casa. Minha mãe e eu. Mantemos uma relação saudável. Às vezes, passamos dias sem receber visitas e isso faz com que colecionemos cuidados um para com o outro.

Em nome de uma convivência respeitosa, tomo o maior cuidado com o 80, por exemplo. O 80 é um momento tão somente meu. Exclusivamente meu. Posso até fazer coco de porta aberta para as visitas, mas na comparação com o 80, privada vira banco de praça.

O 80, aqui, é o número do canal de sexo 24 horas.

Para aliviar a pressão de hormônios em combustão, recorro ao 80. Mas para que isso aconteça, não pode haver nenhum ruído oriundo do quarto da velha. Não sou moderno a ponto de imaginar comer pipoca com ela assistindo o Kid Bengala, por exemplo.

Certa noite, porém, meu ritual de solidão foi abruptamente interrompido. Esqueci, naquela noite, que ela estava sob medicação e de tempos em tempos ia até a cozinha medicar-se.

Mamãe me pegou no sofá suando.

Perguntou-me, sem deixar de se mover para a cozinha, se eu estava bem e por que já não estava deitado. Imediatamente troquei de canal e respondi, desastrosamente, que estava sem sono e que curtia um bom filme.


No dia seguinte, ambos tomando chimarrão sob a luz do sol que invadia a janela da cozinha, ela me olha nos olhos e pondera:

- Vagner, é o seguinte, não precisa ficar bloqueando as coisas. Nem dou bola praquele 80!

terça-feira, 27 de julho de 2010

Auto-retrato



Quando éramos crianças, meus amigos e eu resolvemos fazer a divisão dos times um tanto atípica: negros contra brancos. Entre risos e euforia geral, inclusive a minha, um dos meus amigos sugeriu jocosamente:

- O Vagner é o juiz!

Aquela frase, por breves segundos, soou-me despretensiosa, ingênua, pura como a percepção de uma criança. Mas só por breves segundos. Seu caráter bem-humorado foi engolido por um couro retumbante de gargalhadas:

- HAHAHAHAHAHAHAHAHA

Passado tal impacto, puseram-me imediatamente no time dos negros, pois o time claro possuía um elenco quantitativamente superior. Lembro-me que dei meu melhor naquele dia. Vencemos.

Quando comentávamos sobre as jogadas produzidas, todos juntos, brancos e negros, um dos meus colegas brancos aproximou-se de mim e sussurrou verdadeiramente:

- Tu era pra ter jogado com a gente.

Alguns anos depois, já com todos os pelos no corpo, fui novamente arremessado para tal encruzilhada, ou melhor, bifurcação. Numa discussão áspera, minha ex-namorada negra bradou:

- Para de ouvir esses rock, tu é negão e negão escuta samba!

Essa frase inegavelmente já não tinha mais aquele caráter ingênuo daquela que antecedeu a divisão dos times. E mesmo tendo articulado uma boa resposta para essa ideia escabrosa, lembro-me que seu teor sobreviveu em mim. Por um bom tempo.


Poucos anos transcorreram, quando ontem, diante do espelho, tomado por uma vontade de mudar substancialmente o visual do meu cabelo, minha bifurcação étnica mostrou de forma sobrenatural suas garras:

- Não estás querendo assumir a negritude dos teus cabelos?

Agora, porém, não sou mais aquela criança tímida da pelada, agora não sou mais aquele jovem adulto da discussão conjugal. E respondi com a maior convicção do mundo:

- Mais ou menos.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Poeminhas de inverno

Sobre o banheiro

O enfrentamento com o espelho
O enfrentamento com a água
Uma boca que se refresca
Duas nádegas que gelam

Sobre a sala

Um sofá de três lugares
Dois travesseiros
Um cobertor
O mate
Os cigarros
Tele cine premium
Tele cine action
Tele cine light
Tele cine pipoca
Tele cine cult
Canal brasil
Silvério
Gabriel (veio)
Tnt
Gnt
Hbo plus
Tv com
Sportv
Tve
Rede tv (domingos à noite)
Bandeirantes (segundas)
Globo (madrugadas)

Sobre a peça do computador

As pantufas
O Mate
Os cigarros
Zero hora
David Coimbra
Wianey Carlet
Nando Gross
Globo
Sala de redação
Hotmail
Twitter
Orkut
Algumas paradas
Messenger
Fabrício Carpinejar
Vida breve
Marcelino Freire
Windows media player
Google
Wikipédia
4shared

Sobre o quarto

Dois travesseiros
Um cobertor
Um edredom
Uma calça
Um blusão fino
Um aurélio velho
Herman Melville
Rubem Braga
Um dicionário português-espanhol
Uma bic azul
Uma bic preta
Uma luz que se apaga...

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Falta-me tino para administração



Falta-me tino para administração. Cansei de perder o que já estava na mão. Não tenho a ínfima quantidade de talento que Don Corleone tinha para o trato nas relações.

Acabo atropelando as pessoas. Não possuo a frieza, a segurança e a paciência com as pretendentes. Quero logo deixá-las com marcas no pescoço, chegar chegando, como a máfia italiana.

Telefono sempre a negócio. Vou logo convidando para sair. Esqueço de perguntar ao menos se está bem e como foi seu dia. Pareço um mafioso apavorado com a possibilidade de um grampo no telefone.

Quando vejo que ela esboça um sorriso malicioso, caio na vaidade de mandar meus amigos atrás de informações, como capangas fiéis. Às vezes, perco meus negócios para meus capangas.

Eu poderia ser mais bem sucedido nos negócios, se confiasse mais em mim. Ponho um terno bem alinhado, mas não ajo com a mesma elegância. Trabalho bem o vocabulário nos encontros, porém vou perdendo a paciência quando o beijo não vem.

Ando sempre armado, mas nem sempre com ela carregada. Com o alvo aberto, perco constantemente o melhor momento de dar o tiro. Fico procurando as balas como um amador.

A única virtude que possuo nesse ramo é a esperança. Todos os dias acordo disposto a conferir os detalhes do ambiente. Confiro se está limpo, se há bebida no bar, se há um disco na agulha.

Acordo e vou logo deixando tudo em ordem para fechar o melhor negócio da minha vida.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Não sou cult para TV



Atormenta-me o fato de eu não apresentar um gosto cult para televisão. Com oitenta canais disponíveis, fico circunscrito a pouco mais de seis. Meus ouvidos já gravaram os comerciais.

Ontem, uma amiga me colocou numa situação constrangedora. Depois de um longo papo malicioso, pisei em falso quando a indaguei sobre o que via. Disse-me que assistia um filme argentino, no tele cine Cult. Na vez dela, porém:

- Estou vendo o superpop.

Dois minutos depois, confessou-me que precisava descansar e em sua foto, repentinamente, apareceu offline. Foi-se sem ao menos me dizer que achava a Luciana Gimenez bonita.

Cavei minha própria cova e joguei todas as minhas pretensões para com ela no ralo. Por que não tive a inteligência de mentir e dizer que estava emocionado ao ver o beijo que o homem-aranha dava em Mary Jane Watson, depois que ela arreda sua máscara, na chuva?

Perdi também a possibilidade de mostrá-la que compenso essa breguice televisiva com atitudes românticas. Com gestos singelos e honestos.

Tomo cuidados que hoje soam como caretice. Faço questão de escrever para minha namorada, afora os recursos eletrônicos. Essa menina poderia ter conhecido minha verdadeira letra.

Essa menina poderia ter visto e sentido que sou cult na relação.