quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Isso tem que parar


Tenho que parar. E pensar. O que realmente é importante pra mim? Eu preciso saber o que é importante pra mim? Não preciso. Eu prefiro saber o que é importante no momento. Sempre preferi os verbos conjugados no presente do indicativo.

Não tenho que me violentar e parcelar o tênis de 480 reais, para me sentir com os pés bonitos, e todos elogiarem o novo modelo da velha marca. Não vou praticar musculação visando o verão. Não é obrigatória a exposição de um abdômen firme.

Não preciso ler Os Lusíadas para confirmar meu bom gosto literário. Não tenho que aprender uma língua estrangeira. Ou duas ou três. Não preciso ir à cabeleireira para raspar minha cabeça. Abro mão de um pescoço bem feito.

Não sou obrigado a brigar com esse adversário invencível, o relógio, e justificar a ausência de tempo em nome de um bom salário. Não tenho que deixar a companhia da minha mãe antes dos trinta. Ela me deixará quando eu menos esperar.

Não tenho que estudar para aquele concurso de 8.000 reais mensais. Prefiro continuar no anonimato, não quero servir de exemplo, de referência pra ninguém. Vou ganhar o que eu fizer por merecer. Desejo atarefar-me com prazer.

Não tenho que desejar feliz aniversário para as pessoas, no Orkut. Gosto de parabenizá-las pessoalmente. Se não as vejo no dia, paciência. Ainda prefiro o abraço, o cheiro das roupas, as digitais calejadas e suadas.

Tenho que parar pra pensar. E ter paciência. Deixar o meu estado de espírito falar mais alto. Ouvir-me. Tenho que fazer e ser aquilo que eu achar que devo fazer e ser.
E não tenho que parar de sentir esperança por aqueles que não param para se ouvir.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Pinta: o lado escuro da lua


Adoro mulheres com pinta em uma das bochechas. Elas são especiais por serem misteriosas. Saborosas. Mas atenção: a pinta tem de aparecer somente em uma das maças do rosto. Dos dois lados, é sinal de exibição.

Com uma pinta solitária, a mulher reserva a outra metade de sua face para mostrar a pureza, a ingenuidade. O lado da pinta é o lado afetivo, provocador, sensual. É a metade da perdição.

Mulher sem pinta é mulher sem sal. Desculpem pelo meu radicalismo. Digamos, então, que, as mulheres sem pintas possuem outro tipo de sal. Mas não se trata do tempero que trato.

A pinta na bochecha é o trabalho artístico das células, é a tatuagem de amor produzida pela mãe e pelo pai. É um sinal feito, não para elas, mas para eles. Para nós. E o pior é que muitas perdem horas e horas rebocando o que já está pintado. O mesmo pintor da natureza.

Como são bobas. Preocupam-se demais com o batom, com o lápis, com o brilho dos cabelos, com a combinação da corrente com os brincos. Mal sabem que, no primeiro contato, nós olhamos mesmo é para a pinta. Ela que revela a personalidade da mulher. Ela é que nos faz apostar as fichas.