quinta-feira, 22 de julho de 2010

Falta-me tino para administração



Falta-me tino para administração. Cansei de perder o que já estava na mão. Não tenho a ínfima quantidade de talento que Don Corleone tinha para o trato nas relações.

Acabo atropelando as pessoas. Não possuo a frieza, a segurança e a paciência com as pretendentes. Quero logo deixá-las com marcas no pescoço, chegar chegando, como a máfia italiana.

Telefono sempre a negócio. Vou logo convidando para sair. Esqueço de perguntar ao menos se está bem e como foi seu dia. Pareço um mafioso apavorado com a possibilidade de um grampo no telefone.

Quando vejo que ela esboça um sorriso malicioso, caio na vaidade de mandar meus amigos atrás de informações, como capangas fiéis. Às vezes, perco meus negócios para meus capangas.

Eu poderia ser mais bem sucedido nos negócios, se confiasse mais em mim. Ponho um terno bem alinhado, mas não ajo com a mesma elegância. Trabalho bem o vocabulário nos encontros, porém vou perdendo a paciência quando o beijo não vem.

Ando sempre armado, mas nem sempre com ela carregada. Com o alvo aberto, perco constantemente o melhor momento de dar o tiro. Fico procurando as balas como um amador.

A única virtude que possuo nesse ramo é a esperança. Todos os dias acordo disposto a conferir os detalhes do ambiente. Confiro se está limpo, se há bebida no bar, se há um disco na agulha.

Acordo e vou logo deixando tudo em ordem para fechar o melhor negócio da minha vida.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Não sou cult para TV



Atormenta-me o fato de eu não apresentar um gosto cult para televisão. Com oitenta canais disponíveis, fico circunscrito a pouco mais de seis. Meus ouvidos já gravaram os comerciais.

Ontem, uma amiga me colocou numa situação constrangedora. Depois de um longo papo malicioso, pisei em falso quando a indaguei sobre o que via. Disse-me que assistia um filme argentino, no tele cine Cult. Na vez dela, porém:

- Estou vendo o superpop.

Dois minutos depois, confessou-me que precisava descansar e em sua foto, repentinamente, apareceu offline. Foi-se sem ao menos me dizer que achava a Luciana Gimenez bonita.

Cavei minha própria cova e joguei todas as minhas pretensões para com ela no ralo. Por que não tive a inteligência de mentir e dizer que estava emocionado ao ver o beijo que o homem-aranha dava em Mary Jane Watson, depois que ela arreda sua máscara, na chuva?

Perdi também a possibilidade de mostrá-la que compenso essa breguice televisiva com atitudes românticas. Com gestos singelos e honestos.

Tomo cuidados que hoje soam como caretice. Faço questão de escrever para minha namorada, afora os recursos eletrônicos. Essa menina poderia ter conhecido minha verdadeira letra.

Essa menina poderia ter visto e sentido que sou cult na relação.