
Pouco a pouco os passos e as conversas se distanciavam. Acendiam-se os faróis. O crepúsculo transformava-se lentamente numa noite estrelada e as lembranças do amanhã ficavam evidentes. Num momento de dispersão, percebi que havia três estrelas idênticas sobre o teto do carro, quase perfeitamente alinhadas. Acho que eram as três Marias que aparecem num dos contos do João Simões Lopes, não lembro qual.
Pegar o fim de tarde e o início de noite numa praia é inspirador, reflexão. A companhia da namorada permite contornar a vaidade e o ambiente praiano concretiza os substantivos abstratos, as tais sensações. A noite fica transparente para nós dois. Planos e sugestões, dentro do carro, percorrem uma via de mão dupla e as duas igualmente movimentadas. Nada é por acaso, viver em companhia é combinação, é vestir-se com as roupas do outro. A vida de casal é um guarda-roupa, exigi-se organização para ter espaço e renovação para dar prazer. Os amigos que por ali passavam pareciam ser cúmplices, não chegavam porque sabiam que aquele era o nosso espaço, era o nosso quarto.
Nós dois gostamos da praia, mas gostamos mesmo quando ela nos deixa a sós.