sábado, 24 de outubro de 2009

Só serei melhor com um filho


Já raciocinei o suficiente para afirmar isso. Não preciso de um compromisso semanal num consultório no centro da cidade. O psicólogo se aborrecerá. Também não é suficiente um acompanhamento espiritual. As entidades não descerão diante da minha presença.

A literatura de auto-ajuda já não me informa mais. As conversas que travo com a mãe não duram mais que 7 minutos. Ela me entregou pra Deus, como dizem todas as mulheres machucadas por aí.

O ambiente universitário não abre a cabeça, pelo contrário. Na verdade, ele aumenta a angústia porque ampliamos os questionamentos. No meu curso, ainda não há uma disciplina que trate das questões do coração. Meu currículo é incompleto.

Só serei melhor quando for obrigado a dormir a prestação, a conta gotas. Só serei menos egoísta quando gastar menos dinheiro com cerveja, com cigarro. Só terei mais compaixão quando vê-lo dormir um sono profundo e gostoso.

Só serei mais sensível quando perceber o valor dos momentos corriqueiros, colocá-lo no meu colo para alimentá-lo. Fazê-lo arrotar e rir depois. Só terei mais responsabilidade quando me sentir obrigado a protegê-lo da diferença entre as calçadas. Não deixá-lo esfolar o joelho e os lábios.

Só serei mais inteligente quando pagar finalmente essa dívida que a vida me impôs. A vida me adotou. A vida me deu oportunidade também de acertar. E só acertarei quando der uma oportunidade a alguém.

Só serei melhor com um filho.

domingo, 18 de outubro de 2009

Errei



Agora sofro por não saber guiar na chuva, mesmo usando pneus de pista molhada. Eu não tive a devida preparação. Menosprezei as categorias inferiores, vi possibilidade de sucesso direto na principal. Não consegui controlar o meu ímpeto.

Farei, a partir de hoje, o que já devia ter feito: voltar. Começar a me dirigir na etapa dos iniciantes. Pela primeira vez pilotarei um Kart. Esse é o processo natural na vida de qualquer piloto, com ou sem talento.

É que os elogios foram muitos. Diziam que eu possuía frieza na hora de uma ultrapassagem, que tinha arrojo, que era delicado com o meu carro, que sabia valorizar a máquina que estava em minhas mãos.

Mas os elogios nem sempre mostram o que se passa nos bastidores. Os especialistas em fórmula um ainda não viam em mim um piloto pronto, ou seja, em plenas condições de brigar por título. Não dominei minha vaidade ao ignorá-los.

A sensação que tenho é que uma voz soprou em meu ouvido, brandamente. Ela disse que deveria parar com aquilo, que não deveria insistir naquela ilusão, por mais que a tentação de notoriedade fosse gostosa.

Eu não estava em paz comigo, por isso resolvi ouvi-la. E agora o que me resta é a humildade de reconhecer que o meu lugar, por enquanto, é no Kart. Preciso reparar o erro de não ter treinado primeiro com peças menores e mais simples.