quarta-feira, 20 de maio de 2009

O texto literário: e sua face perversa oculta

Na época fui enganado, aproveitaram-se da minha ingenuidade juvenil. Inerentemente juvenil.
É. Eu amadureci. Hoje, com 38 anos, casado e pai de uma filha, a Lara, consigo enxergar a minha vida de maneira mais ampla, mais consciente, mais limpa. E a divido em dois momentos: antes de estudar literatura e depois de estudar literatura. O texto literário mudou o movimento da minha vida. Infelizmente. Dependência psíquica crônica que, hoje, felizmente e com a graça Dele, o papai do céu, está totalmente curada.
Mas voltemos no tempo.
Antes da literatura, minha relação com as pessoas era absolutamente respeitosa. Com as mulheres, por exemplo, era extremamente romântica, eu as enxergava como seres superiores, sem ser piegas. A religião estava sempre presente na configuração do meu imaginário com as mulheres.
Depois, minha relação com elas passou a ser profissional, serviçal, pragmática. E com os homens então desprezíveis.
Antes, como passava muito tempo em casa, via muito a televisão e os programas de que mais gostava eram o Globo Repórter, o do Jô e os documentários do canal de história. E aprendi muito na época. Sempre primava pelo conteúdo.
Depois, passei a idolatrar, estranha e repentinamente, os comerciais. Adorava aquelas frases soltas e temporárias. Os personagens dos comerciais eram enigmáticos pra mim. Eu já estava no fundo do poço.
Antes, meus gostos musicais passavam pela Bossa Nova, tropicália, coisas pontuais da Jovem guarda até Djavan e Tim Maia. Emílio Santiago também. E as pessoas que me cercavam gostavam do meu gosto, parecia que tínhamos combinado. Todos me achavam simpático.
Depois, passei a gostar de músicas eletrônicas e daquelas que me faziam desaparecer, fugir de mim. As Instrumentais. Eram as ilusões, sensações de liberdade. Meus amigos me abandonaram, uns diziam que eu estava metido.
Antes, interessava-me os vencedores, as batalhas épicas da humanidade, eu amava os grandes feitos dos grandes homens. Salomão e Alexandre.
Depois da literatura, e isso também pelo fato da minha filha ter nascido, passei a gostar mais das longas noites de inverno as quais me possibilitavam divagações, eu passei a apreciar a solidão noturna.
Antes do texto literário eu era um cidadão, depois me transformei no que vocês acabaram de ler. Um ser estranho, problemático melhor dizendo.
Hoje, sem nenhuma sequela e completamente desintoxicado do trabalho com a linguagem, porque a literatura vicia pelo trabalho com a linguagem, sinto-me fortalecido, gozo quixotescamente da vida, encontro-me na terceira margem do rio. Graças a Ele, o papai do céu.

Eu, um homem recuperado.