sábado, 12 de setembro de 2009

Notas do oitavo andar


Aguardavam-na no salão do segundo andar. Afinal, ela estava lá para um compromisso profissional. Pessoas de diferentes partes do estado aguardavam o seu discurso, eles eram a sua platéia. Ela desceu perfumada, maquiada, educada.
- Boa sorte, desejei.

Estou só. Serão duas horas de solidão. O que farei para passar prazerosamente esse tempo? Existem algumas alternativas. Descer os oito andares e ler o jornal local, na companhia do recepcionista. Apanhar o guarda-chuva e caminhar por essas estranhas ruas catarinenses. Tomar uma cerveja no boteco mais próximo.

Melhor permanecer na intimidade das nossas coisas. Elas me confortam. A televisão e o programa esportivo, a cama, a internet. Os meus cigarros. O que seria de mim nessas duas horas sem os meus cigarros?

Não consigo assistir os vídeos que gosto, na internet. Não encontro concentração. É que não estou acostumado com esse vento, que insiste em espiar. Vou fechar as janelas. E as cortinas. Quero um pouco de introspecção.

Não posso. Nesse quarto, o que há de mais belo é justamente a vista. Ela é muito diferente da que costumo ter. A janela e as cortinas devem permanecer abertas. Acho que vou tirar fotos.

Registrar os momentos é remediar a memória. É valorizar a idade. Já sei. Vou escrever. Eu gosto. E confesso que escrever sob tal circunstância é um tanto inspirador. Vou apertar a tecla nove e solicitar mais uma garrafa de água quente. Não vou abrir mão dos costumes gaúchos.

Os 120 minutos atípicos agora pertencem ao passado.
- E aí, como foi?
- Tudo bem, graças a deus.

Companhia com solavancos



Como um casal, dividimos dois espaços entre quarenta disponíveis. Nossa movimentação só poderá atingir um ângulo de 45 graus. Sob tal circunstância, é a hora de mostrar, mais do que tudo, o quanto somos amigos um do outro. Ofereço meu ombro esquerdo para que ela possa descansar ou cansar de pensar, de planejar, de refletir, até que suas pálpebras não aguentem as horas em linha reta.

E com o peso de sua cabeça, também reflito, também partilho meus desejos, minhas falhas, minha satisfação. Nossa conversa ganha um tom de confissão. E os solavancos do ônibus servem para arrumar ainda mais o que já estava arrumado. Os solavancos servem para reforçar o carinho. O motorista o faz de propósito.

A garrafa de água mineral que carrego e que abro, no fundo, é para ela, é para ratificar a importância da companhia, é para mostrá-la que não está só. E eu sei que em sua consciência, o moço sentado ao seu lado, na poltrona 22, também está seguro de que entre 40 espaços, dois foram reservados para a companhia do casal.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Mulheresdesobretudo


Sempre tive uma admiração especial pelas mulheres de sobretudo.
Elas são mais inteligentes, gostam de preservar a temperatura dos seus corpos, valorizam seu calor espiritual.
No inverno rigoroso, não saem pelas ruas exibindo seu par de coxas com um jeans excessivamente apertado. Isso é sinal de insegurança. A preocupação de mostrar a bunda, a metade norte da tatuagem e o pingente no umbigo é aflição.
A mulher que veste um sobretudo tem a sensibilidade de perceber, que o prazer está na descoberta, à sensualidade está nessa bela peça que alimenta a nossa imaginação.
Ela também deseja ouvir um assobio, ela também quer escutar uma cantada cafona de um macho disponível. Mas tudo isso tem de acontecer na iluminação apenas da lareira, no mistério das quatro paredes.
Nesse cenário, ela sentirá um enorme prazer em tirar o sobretudo.
Em tirar tudo.