domingo, 2 de agosto de 2009

Saleta a dois


Estamos no sofá. Como não estou em casa, fico sempre do lado direito, o lado da estufa. A visita sempre goza do que há de melhor na casa. Não adianta dizer que sou daqui. Não sou. Aqui eu não como arroz com feijão, não descasco bergamota no sol, não dou palpite sobre a cor das cortinas, não passo desinfetante no piso, eu não saio na chuva para por o lixo na grade.
Aqui, a minha casa és tu, o sofá e a estufa.
Aí eu me conecto. Aí damos um outro significado para a saleta.
Ela é outra quando recebe a parentada no domingo. Ela ouve gargalhadas e conversas sobre dinheiro, no domingo. As mãos em movimentos desordenados. Na quarta à noite, porém, ela ouve risos tímidos e cochichos sobre trocados. Queremos apenas o suficiente para fazer um chocolate quente. Faltam-nos apenas os ovos para o merengue. Nossas mãos obedecem à geografia dos nossos corpos. E quando aparece alguém, na saleta tímida, fico com ciúme. Ela não quer interferência, eu sinto. A TV apresenta chuviscos, a estufa não fica mais tão vermelha, eu preciso sentar como numa entrevista de emprego.
Não perca tempo com esforços mil.
Só me sinto em casa, quando a saleta somos nós dois.

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