
Sempre me preocupei com o relógio. Frustrava-me quando não resolvia as coisas que roubavam o meu espaço. Quando criança, irritava-me o fato de perder alguns minutos do meu desenho favorito. Não admitia interrupção na Caverna do Dragão.
Na escola, minha única preocupação era com o tempo das aulas de educação física. Rezava para que o professor de matemática se atrasasse e torcia para que houvesse prolongação do futebol. Meu tempo, no colégio, era o futebol.
Meus amigos e eu brincávamos até sermos repreendidos pelos pais. Era uma irresponsabilidade gostosa, típica de moleques de vila. Sujeira por todo o corpo, fadiga total. Fazíamos isso para debochar das outras crianças que tinham horário. Dizíamos que eles haviam perdido o melhor da brincadeira.
Meu primeiro beijo foi frustrante. Babei, mordi. Hoje, não tem mais a mesma graça babar e morder. Não há ingenuidade, não há pureza. Hoje, não ajo sobre o tempo. O tempo já agiu sobre mim.
A impaciência, a incompreensão, a hostilidade. Tudo isso é resultado do tempo. O tempo que já vivi. E mesmo assim, gostaria de voltar, gostaria de regressar no tempo em que simplesmente vivíamos. Sem resultados, sem provação. Apenas para aproveitá-lo.
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