sexta-feira, 12 de março de 2010

Quem tem orkut é picareta



Adquiri, nos últimos anos, o hábito de pesquisar pessoas interessantes no orkut. Por vezes, perdia meu sono para achar alguém. Quando encontrava, a decepção vinha logo em seguida.

Deixava-me seduzir pelas comunidades em que participava, pelas fotos, pelo trabalho profissional de alguns álbuns. O que mais me chamava atenção, no entanto, era a definição do perfil.

Pela prática, estabeleci alguns critérios de avaliação. Se o perfil era extenso, a pessoa já estava mergulhada no desespero. Falava só para agradar, não havia muita verdade naquelas palavras.

Se o perfil era curto, tratava-se de alguém com pouca criatividade. Alguém comum, com medo de passar da conta, de se expor. Bobagem. Bacana é se expor com inteligência.

Só o tempo para terminar com esses mitos. Constatei que tudo não passava de virtuosidade. Era tudo miragem provocada pela luminosidade das máquinas. O orkut é o nada em certa medida de complexidade.

Quando duas pessoas se encontram de verdade, tudo não procede. As coisas que antes caracterizavam aquela orkuteira são reduzidas ao nada, o toque e o olhar trazem uma nova concepção do caráter.

Concluí, então, que aquele trabalho com a linguagem não passava de picaretagem. O perfil do orkut só vale até o momento em que as duas pessoas sentem o cheiro uma da outra.

domingo, 7 de março de 2010

Apito



Quando me reúno com os amigos, sei apenas parcialmente das coisas que vão acontecer. Sei que vamos beber, que vamos comer, rir. A noite deixa a porta entreaberta. Não mais que isso.

Gostaria que a noite deixasse escancarada a porta das gratas surpresas. Queria me reunir ciente das minhas possibilidades. Queria por um jeans sabendo como, onde e porque a beijarei.

Não suporto, às vezes, ver quem não gostaria de ver. Não tenho nada contra ela, pelo contrario, sou todo a seu favor. Mas parece provocação. Ela também me viu, mas não mais que isso.

Queria ter um apito na noite. Eu apitaria para ela, sem pudor. Terminaria com a minha pequena reputação em nome da sua atenção. A vantagem de não se reunir com ninguém é que não constrangemos ninguém.

Se estivesse só, e ela também, não hesitaria. Sentaria na mesma mesa e perguntaria o que desejava beber. Mostraria interesse sobre o que estava fazendo, o que já tinha feito, enfim, tudo dentro do convencional, tudo para atrai-la.

Com a atenção dela, nada depois seria convencional. Ela é diferente. Estar com ela, tenho certeza, é tudo que ainda não vivi e que não queria viver, se não fosse com ela.