
Quando a via, seu coração pulsava ouriçado, o cérebro balançava prejudicando seu reflexo e seu senso de equilíbrio. Era exatamente isso que acontecia. O que começou com uma singela amizade, transformou-se num sentimento arrebatador. O seu corpo acusava os sintomas.
E agora? Como lidar com isso, não se trata apenas de uma relação, refletia Clarisse. Trata-se de várias relações periféricas. Ela entendia que era preciso harmonizar os gestos, controlar a sede para não serem vítimas dessa sociedade que – segundo ela – era em demasiado careta. Clarisse preocupava-se demais, sobretudo com o outro lado:
- não quero vê-la sofrer o que já sofri.
Mas a outra viajou. Uma viagem repentina, imprevista, trágica para Clarisse. Estava só pelo menos por um mês. Evitando a comunicação, pois era arriscado dar margem pra um sentimento de desconfiança que já se instalava pelos próximos, Clarisse era só calendário. E angústia.
Sua preocupação era circular com uma caneta vermelha os dias que passavam, aquele papel com números era a peça mais valiosa da casa. O mural com os momentos marcantes e em posição de destaque já assumira papel de coadjuvante. O ambiente havia mudado, profundamente.
Não entendiam porque passara a comer pouco, a falar pouco. Sua mãe – atenciosa – a indagava a fim de ajudar de algum jeito, dizia que ela estava ansiosa, mas Clarisse, na insistente introspecção, contornava o assunto com um simples:
- nada, isso vai passar.
Ela tinha razão. Passou. E passou também o desejo recíproco. Quando regressou, falou-lhe que encontrou um velho amigo e que por força das circunstâncias reataram um romance que começara desde que eram crianças. Ela se sentia realizada, animada:
- Clarrise, não sei te explicar, o que sinto por ele é mágico, acho que éramos...
Finalmente Clarisse superou, depois de um longo tempo, o que parecia insuperável. E foi logo substituiu o calendário, reorganizar as fotos do mural e pensou:
- daqui pra frente não vou harmonizar mais nada, vou proteger apenas meu coração, me arremessar em direção ao que ele sentir, grite quem gritar.
E fechou com força a porta do seu quarto.
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