sábado, 7 de novembro de 2009

Verossimilhança conjugal


É bom receber a visita de um casal amigo. É bom sentar-se no sofá para ouvi-los, para trocarmos impressões sobre nossas histórias. Tudo que eles dizem sobre a história deles tem uma lógica, todas as ideias e contradições deles obedecem às ideias e contradições nossas.

E o que eles falam soa pra mim como uma teoria da narrativa. É estudar o movimento de dois personagens dentro de um espaço quase que personagem. É entender por que o ambiente é importante para a sucessão dos acontecimentos.

Somos cúmplices. Entendemos até suas expressões faciais: os olhares, a gargalhada, os sorrisos contidos. Os aspectos que transformam a relação em literatura. Os exageros, o desvio da linguagem, o estranhamento. O xingamento.

O herói. Quando casamos ou quando começamos a namorar, tornamo-nos autores de primeira grandeza. Passamos a figurar em qualquer lista de leitura. Viramos imortais da Academia Brasileira de Desaforos. Formamos público.

Entregar-se para relação é apreciar literatura. É reconhecer o prazer e a importância de qualquer gênero narrativo. É deliciar-se com a poesia, é ficar em transe com um conto, é ter paciência para percorrer o longo e sinuoso movimento de um romance.

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