terça-feira, 5 de outubro de 2010

O lixo paterno



Li por aí que não devemos ficar presos no passado. Não sei ao certo em que medida essa afirmação influenciou minha atitude de hoje, mas promovi a maior limpeza já realizada no galpão da casa.

Galpão era como o meu pai chamava a peça que, via de regra, chama-se despensa. Aqui, a mãe e eu chamamos a despensa de galpão por uma convenção afetiva. Por uma arbitrariedade amorosa.

E quando o charreteiro chegou para o serviço meio aguardado, pedi para que entrasse e avaliasse o frete. Com um olhar por alto, proferiu num tom mediano:

- 15 conto e eu levo tudo!

Por um breve momento, considerei muito razoável o valor que aquele humilde charreteiro havia posto em seu serviço. Depois, achei uma ofensa os quinze reais. Ele pôs esse valor para transportar os objetos guardados pelo meu pai.

Mas na esteira das reminiscências, percebia também o meu papel de cúmplice em classificar os pertences do velho como lixo. Como estorvo. O charreteiro e eu queríamos ver todas aquelas ferramentas, fios, cordas, papéis e peças velhas de caminhão longe dali.

Meu pai tinha um caminhão.

Ele também tinha o hábito de guardar e guardar até quando fosse necessário. E sempre havia um momento em que ele entrava e saia do galpão com um objeto empoeirado, assoviando.

Mas eu estava pondo um fim a tudo aquilo.

E mesmo que a gente não deva ficar preso no passado, foi difícil perceber que hoje parte do meu pai e de mim se foi para um além, naquela humilde charrete.