domingo, 20 de dezembro de 2009

Eu queria ser cartola


Sentado, só, numa sala privilegiada. Nela, apenas meu uísque e meus cigarros. E o celular: que não para! Preciso desligá-lo. Torcendo como torcedor. Sofrendo como um apaixonado.

Só durante os noventa minutos. Depois, deixo a porta ser aberta, permito interrupções e palpites. E xingo, e emito opinião sobre tudo e sobre todos. E deixo minhas dependências para ir até o campo e insultar o árbitro.

A torcida espera isso de mim. Os jogadores que eu contratei e que pago me seguram pelo paletó. Meu rosto é boxeado por microfones, minha voz é articulada, minha voz é inconveniente:

- ele é um safado!
- ele é um safado!
- isso sempre acontece conosco!

Semana cheia. Programas e explicações sobre tal ato. Repercussão nacional. Internacional. Puxam minha vida em revista, expõem minha trajetória. Explicam como me tornei o cartola maior.

Não sei vocês, mas eu vejo um quê de poético nisso tudo. Um espécie de ator, de moleque deslumbrado com o posto que ocupa. Alguém com privilégio de expor sua irracionalidade, sua paixão em rede nacional.

Eu queria ser cartola.

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