Hoje fez uma tarde fria. Só me faltava um bom lugar para ler um livro.
Não suportava mais o barulho dos carros na rua impedindo minha leitura de ‘viajante solitário’, de Jack Kerouac. Havia posto uma cadeira de praia verde na garagem. Minutos depois a recolhi.
Foi então que enxerguei um sofá velho, de um lugar, na peça contígua ao computador, que suportava tralhas e mais tralhas de minha mãe. Sacola com roupas de cama furadas, agulhas e linhas emboladas e desbotadas e uma espessa camada de pó envolvendo todo o móvel.
Removi tudo abruptamente. Passei um lustra móvel para que aquele objeto esquecido recuperasse sua dignidade. Dobrei e encaixei um cobertor xadrez por cima para que ficasse mais confortável. Mais quente.
Abri o livro. Eu estava na página 80. Ele, o Jack, relatava uma de suas viagens de trem pelos sertões estadunidenses. E descrevia maravilhosamente bem a iluminação do sol num fim de tarde.
Transcorridas algumas páginas, percebo o sol batendo em todo o meu corpo, envolvendo o livro e o móvel. O sofá estava exatamente na reta da única janela de ferro da casa. Essa janela tem vidros generosos.
Percebi, então, que aqui, na minha casa, existe um lugar maravilhoso para se viajar solitariamente.
Eu havia feito, nessa tarde fria, muito mais que uma descoberta.