
Aguardavam-na no salão do segundo andar. Afinal, ela estava lá para um compromisso profissional. Pessoas de diferentes partes do estado aguardavam o seu discurso, eles eram a sua platéia. Ela desceu perfumada, maquiada, educada.
- Boa sorte, desejei.
Estou só. Serão duas horas de solidão. O que farei para passar prazerosamente esse tempo? Existem algumas alternativas. Descer os oito andares e ler o jornal local, na companhia do recepcionista. Apanhar o guarda-chuva e caminhar por essas estranhas ruas catarinenses. Tomar uma cerveja no boteco mais próximo.
Melhor permanecer na intimidade das nossas coisas. Elas me confortam. A televisão e o programa esportivo, a cama, a internet. Os meus cigarros. O que seria de mim nessas duas horas sem os meus cigarros?

Não consigo assistir os vídeos que gosto, na internet. Não encontro concentração. É que não estou acostumado com esse vento, que insiste em espiar. Vou fechar as janelas. E as cortinas. Quero um pouco de introspecção.

Não posso. Nesse quarto, o que há de mais belo é justamente a vista. Ela é muito diferente da que costumo ter. A janela e as cortinas devem permanecer abertas. Acho que vou tirar fotos.

Registrar os momentos é remediar a memória. É valorizar a idade. Já sei. Vou escrever. Eu gosto. E confesso que escrever sob tal circunstância é um tanto inspirador. Vou apertar a tecla nove e solicitar mais uma garrafa de água quente. Não vou abrir mão dos costumes gaúchos.
Os 120 minutos atípicos agora pertencem ao passado.
- E aí, como foi?
- Tudo bem, graças a deus.
Nenhum comentário:
Postar um comentário