
Chorei muito naquele dia. Chorei mesmo. Eu sentia que aqueles desconhecidos que estavam perto de mim queriam me chamar para a confraternização, mas eu baixava a cabeça. Seria constrangedor demais ter que mendigar atenção.
Os fogos lá em cima amenizavam o barulho dos meus soluços, da minha angústia. E eu não estava tão desamparado assim: minha mãe havia visitado sua amiga e minha namorada passava a virada com seus pais. Depois ela viria me ver...
Mas é que bateu um sentimento de desamparo, de solidão. E lembrava compulsivamente das coisas que vivi com meu pai, do quanto ele se estrepava para nos dar uma vida um pouco mais tranquila. Das peripécias da infância, da adolescência. E de todos os meus erros.
Era eu e meu carro, apenas. Foi insuportável pra mim, no Laranjal, no trapiche, aquela festa coletiva. A gente está sozinho no mundo, pensava. Por mais amigos que você tenha, por mais numerosa que seja sua família, a gente está sozinho no mundo.
Em algum momento, numa dada circunstância, você se verá sozinho.
E a gente é o resultado de tudo que vivemos, de tudo que vimos, de tudo que ouvimos, de tudo que lemos. Mas a gente escolhe os alimentos.
O mundo não nos molda. O que me conforta, hoje, é que a gente molda nosso mundinho.