Sempre mantivemos o amor pelo futebol. O futebol entre amigos. Todas as sextas, nós, um grupo de oito peladeiros, levávamos aquele momento mais a sério do que qualquer outro momento. Tão a sério que, passadas horas depois do jogo, ainda havia espaço para a celebração da parceria já fatigada.
E celebrávamos nosso encontro na casa de massagem que nos era mais acessível. O Bangalô (cinco estrelas no ramo) nunca passou de um sonho coletivo.
Já sabíamos, pelas constantes madrugadas de sábado lá, o nome de todas aquelas dispostas a dar carinho com a menor taxa de juros da cidade. Éramos também amigos da gerente.
Um sexta, porém, nossa celebração se transformou em concentração. Um grau de concentração tão acentuado que, nunca, nem mesmo nos nossos jogos mais difíceis, fora visto. Naquele início de sábado, deparamo-nos com os piores atacantes. Os piores matadores.
Dois homens de aproximadamente 40 anos, ambos com cabelos e barbas grisalhos, fitavam-nos com um aspecto nada amistoso. Um bebia e fumava concomitantemente. O outro apenas bebia.
Tal fato intrigou a nós, mais precisamente o Tito, nosso parceiro mais velho e com mais prestígio na casa. Pois o Tito se levantou e foi até a copa, onde se situava a dona, a Preta. Perguntou-a porque aqueles dois caras nos encaravam de forma tão severa. A Preta não soube responder.
Eis que o Jardel dá um grito:
- Vamo embora, os cara tão loco, os cara tão de gargalo na mão!!
Era sangue anunciado. Os homens vieram em nossa direção com um ímpeto de justiceiro. Descemos nos debatendo por aquela escadaria à meia luz para nunca mais subirmos.
Na sexta seguinte, quando todos nós já celebrávamos mais outro pós jogo, revelei o motivo daquela última madrugada de sábado trágica. Eu havia proferido impropérios para a moreninha da casa, sobrinha da Dona. Ela, então, jurou-me vingança ainda naquela noite.
Tudo acontecera por uma má feitoria minha.
Nessa sexta, não saímos para celebrar.
Os jogos também não aconteceram mais.
E eu decidi, naquela noite, voltar a estudar.
