sábado, 3 de outubro de 2009

Reflexos do baile


Dia lindo. 40 graus na cidade maravilhosa. A praia de Copacabana nunca tinha visto tanta gente aproveitando o mar. Todos estavam encantados com a nova cidade que se mostrava. Agora ela estava mais moderna. Mais maravilhosa.

Todas as obras estavam prontas, tudo fora concluído dentro do prazo previsto. Eram belas instalações. Nunca uma vila olímpica recebera tantos elogios, os atletas, de todos os países, falavam sobre o bom gosto que os brasileiros tiveram.

A remodelação do Maracanã, as pistas de atletismo, a superarena de vôlei montada a poucos metros do Atlântico. Um batalhão de repórteres e comentaristas sorria para o mundo. O satélite, lá no espaço, possuía um só compromisso: o Rio. E que cerimônia!

No quesito segurança a cidade também não deixava a desejar. Nenhum roubo, nenhum sequestro relâmpago, nenhuma ocorrência sequer. Até os marginais estavam preocupados com o melhor assento no estádio.

Cliques e mais cliques. Afinal, o homem biônico da Jamaica estava por lá, o tubarão estadunidense também, a craque de bola, a brasileira. E nas tarefas coletivas, o grande time de Bernardinho desfilava seu repertório de jogadas perfeitas, os negros do basquete americano voavam como nunca.

Tudo isso acontecia frenética e espontaneamente aos olhos de um menino. Ele acompanhava tudo, com todos os detalhes, pela sua televisão. Lá, no alto do morro em que morava, seu estado de êxtase já materializava a futura conversa com seu neto. A possibilidade de relatar ao pequeno que vira toda aquela festa do esporte aqui, a poucos quilômetros do seu morro.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Queria o que já vivi


Sempre me preocupei com o relógio. Frustrava-me quando não resolvia as coisas que roubavam o meu espaço. Quando criança, irritava-me o fato de perder alguns minutos do meu desenho favorito. Não admitia interrupção na Caverna do Dragão.

Na escola, minha única preocupação era com o tempo das aulas de educação física. Rezava para que o professor de matemática se atrasasse e torcia para que houvesse prolongação do futebol. Meu tempo, no colégio, era o futebol.

Meus amigos e eu brincávamos até sermos repreendidos pelos pais. Era uma irresponsabilidade gostosa, típica de moleques de vila. Sujeira por todo o corpo, fadiga total. Fazíamos isso para debochar das outras crianças que tinham horário. Dizíamos que eles haviam perdido o melhor da brincadeira.

Meu primeiro beijo foi frustrante. Babei, mordi. Hoje, não tem mais a mesma graça babar e morder. Não há ingenuidade, não há pureza. Hoje, não ajo sobre o tempo. O tempo já agiu sobre mim.

A impaciência, a incompreensão, a hostilidade. Tudo isso é resultado do tempo. O tempo que já vivi. E mesmo assim, gostaria de voltar, gostaria de regressar no tempo em que simplesmente vivíamos. Sem resultados, sem provação. Apenas para aproveitá-lo.