sábado, 31 de julho de 2010

Reflexões involuntárias provocadas por Tom e Jerry



São exatamente 3; 26 da manhã. Sem sono, pra variar. Nem uma leitura está funcionando. Recorro a tv. Nada de tele cine cult ou documentários sobre o futuro do planeta. Quero algo que não precise pensar muito.

Boa ideia: Cartum. O Cartum me ajudará a dormir. Está dando Tom e Jerry. Ótimo. Já vi esse episódio mesmo. É aquele em que o Tom resolve, pra variar, futricar na vida de Jerry e descobre um livro que relata algumas passagens cômicas dele Tom.

Então, ele fica puto da vida quando percebe que o livro faz o maior sucesso e detona gargalhadas em série pelo vilarejo.

- Meu deus!
- Não paro um minuto de pensar!
- Como sou parecido com o Tom!

Esse ímpeto que o Tom tem. Essa vontade sempre egoísta que transforma a razão. Essa vagabundagem sedutora. E malandragem idem. Escandaloso nos gritos. No fundo, ele ama demais demais o Jerry. Ninguém me tira isso de cabeça.

Eu amo demais a dificuldade. O não que persiste. Dou pauladas no percurso. Levo pauladas no percurso. Tenho medo de certos cachorros. Grandes cachorros. Bolo planos arriscados. Às vezes acerto.

 E quando conquisto, sinto muita vontade de brindar e apertar e rir e curtir a quem desejo comer. 

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Desbloqueio



Somos dois aqui em casa. Minha mãe e eu. Mantemos uma relação saudável. Às vezes, passamos dias sem receber visitas e isso faz com que colecionemos cuidados um para com o outro.

Em nome de uma convivência respeitosa, tomo o maior cuidado com o 80, por exemplo. O 80 é um momento tão somente meu. Exclusivamente meu. Posso até fazer coco de porta aberta para as visitas, mas na comparação com o 80, privada vira banco de praça.

O 80, aqui, é o número do canal de sexo 24 horas.

Para aliviar a pressão de hormônios em combustão, recorro ao 80. Mas para que isso aconteça, não pode haver nenhum ruído oriundo do quarto da velha. Não sou moderno a ponto de imaginar comer pipoca com ela assistindo o Kid Bengala, por exemplo.

Certa noite, porém, meu ritual de solidão foi abruptamente interrompido. Esqueci, naquela noite, que ela estava sob medicação e de tempos em tempos ia até a cozinha medicar-se.

Mamãe me pegou no sofá suando.

Perguntou-me, sem deixar de se mover para a cozinha, se eu estava bem e por que já não estava deitado. Imediatamente troquei de canal e respondi, desastrosamente, que estava sem sono e que curtia um bom filme.


No dia seguinte, ambos tomando chimarrão sob a luz do sol que invadia a janela da cozinha, ela me olha nos olhos e pondera:

- Vagner, é o seguinte, não precisa ficar bloqueando as coisas. Nem dou bola praquele 80!

terça-feira, 27 de julho de 2010

Auto-retrato



Quando éramos crianças, meus amigos e eu resolvemos fazer a divisão dos times um tanto atípica: negros contra brancos. Entre risos e euforia geral, inclusive a minha, um dos meus amigos sugeriu jocosamente:

- O Vagner é o juiz!

Aquela frase, por breves segundos, soou-me despretensiosa, ingênua, pura como a percepção de uma criança. Mas só por breves segundos. Seu caráter bem-humorado foi engolido por um couro retumbante de gargalhadas:

- HAHAHAHAHAHAHAHAHA

Passado tal impacto, puseram-me imediatamente no time dos negros, pois o time claro possuía um elenco quantitativamente superior. Lembro-me que dei meu melhor naquele dia. Vencemos.

Quando comentávamos sobre as jogadas produzidas, todos juntos, brancos e negros, um dos meus colegas brancos aproximou-se de mim e sussurrou verdadeiramente:

- Tu era pra ter jogado com a gente.

Alguns anos depois, já com todos os pelos no corpo, fui novamente arremessado para tal encruzilhada, ou melhor, bifurcação. Numa discussão áspera, minha ex-namorada negra bradou:

- Para de ouvir esses rock, tu é negão e negão escuta samba!

Essa frase inegavelmente já não tinha mais aquele caráter ingênuo daquela que antecedeu a divisão dos times. E mesmo tendo articulado uma boa resposta para essa ideia escabrosa, lembro-me que seu teor sobreviveu em mim. Por um bom tempo.


Poucos anos transcorreram, quando ontem, diante do espelho, tomado por uma vontade de mudar substancialmente o visual do meu cabelo, minha bifurcação étnica mostrou de forma sobrenatural suas garras:

- Não estás querendo assumir a negritude dos teus cabelos?

Agora, porém, não sou mais aquela criança tímida da pelada, agora não sou mais aquele jovem adulto da discussão conjugal. E respondi com a maior convicção do mundo:

- Mais ou menos.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Poeminhas de inverno

Sobre o banheiro

O enfrentamento com o espelho
O enfrentamento com a água
Uma boca que se refresca
Duas nádegas que gelam

Sobre a sala

Um sofá de três lugares
Dois travesseiros
Um cobertor
O mate
Os cigarros
Tele cine premium
Tele cine action
Tele cine light
Tele cine pipoca
Tele cine cult
Canal brasil
Silvério
Gabriel (veio)
Tnt
Gnt
Hbo plus
Tv com
Sportv
Tve
Rede tv (domingos à noite)
Bandeirantes (segundas)
Globo (madrugadas)

Sobre a peça do computador

As pantufas
O Mate
Os cigarros
Zero hora
David Coimbra
Wianey Carlet
Nando Gross
Globo
Sala de redação
Hotmail
Twitter
Orkut
Algumas paradas
Messenger
Fabrício Carpinejar
Vida breve
Marcelino Freire
Windows media player
Google
Wikipédia
4shared

Sobre o quarto

Dois travesseiros
Um cobertor
Um edredom
Uma calça
Um blusão fino
Um aurélio velho
Herman Melville
Rubem Braga
Um dicionário português-espanhol
Uma bic azul
Uma bic preta
Uma luz que se apaga...