domingo, 12 de dezembro de 2010

Deslocamento do status



Quando ele chegou à porta da boate, de conversível, boné e jeans bacanas, imaginei que sua noite seria um estorvo para os homens. E foi. Ingressou sem pagar, subiu ao mezanino e pediu uma garrafa de uísque.

Passadas algumas músicas, lá estava o cara ao pé do olvido daquela morena.  Ambos riam escancaradamente.  É claro que está agradando-a, concluí.

Fiquei imaginando como devem ser as noitadas daquele carinha. Muitas morenas rindo pra ele.

Desisti de observá-lo e resolvi fazer a minha festa. Decidi ser adulto antes que me viesse um complexo de inferioridade juvenil. E curti. Curti!


(...)


Cansado e suado, aquela era minha última ida ao banheiro. Eis que, no corredor de acesso, deparo-me com a morena, aquela, linda, que sofria o assédio de, talvez, o cara mais bem-sucedido da casa.

Mas não era o carinha. Era um cara, que, sorrindo, punha um pequeno pedaço de papel em seu bolso, enquanto ela, também sorrindo, guardava uma caneta na bolsa florida.

Supus que fosse seu E-mail, seu Messenger sendo posto no bolso daquele cara com um jeans bem mais modesto que o meu.

Mijei perplexo.
Mijei fora do vaso.

O cara ingressou rindo, abriu seu zíper, e eu não resisti: te desse, hein?!

- Velho, vi que ela tava queimando um magrão metido, me aproximei, pedi uma caipira e nós ficamos de papo a noite toda. Até sobre arte a gente conversou.

domingo, 21 de novembro de 2010

Silvério meu narrador


Preciso prestar mais atenção nas palavras que saem da boca do Silvério direcionadas para mim. Hoje a tarde, percebi que ele é a pessoa que melhor me conhece.



O Silvério é meu amigo. E espetacular em informática. O Silvério mexe no meu computador há quase dez anos. O Silvério sabe melhor do que todos o que se passa no meu HD.


Os poemas singelos confeccionados para minha mãe. Os poemas bobos feitos para algumas meninas. As fotos pescadas na internet. Nos orkuts femininos. O meu gosto musical. Minhas conversas no msn. Meus textos impublicáveis.


Nem minha mãe tem acesso a isso.


O Silvério tem.


Hoje a tarde, a constatação: quando queria saber sua opinião sobre as minhas chances com uma menina da faculdade, assim, despretensiosamente, ele, com segurança, ponderou:


- Olha, tens tudo pra te dar, ela te dá moral, presta atenção no que vocês conversaram aquele dia.


E riu afetuosamente.


Fingi naturalidade. Senti generosidade. O cara me falou com uma segurança pacificadora, com uma convicção poética. Eu vi!


Ao adentrar o meu HD, Silvério recebe o devido poder de me guiar. Sem o sofrimento na carne, apenas com sua focalização totalizadora em mim. Como meu narrador onisciente.

sábado, 6 de novembro de 2010

++ ou - -


Uma semana sim: uma mensagem é passada. Ela é respondida. Uma outra mensagem sofre o mesmo processo e os dois já se vêem entre beijos, carinhos e breves relatos sobre os últimos dias de cada um.

Uma semana não: uma mensagem é passada. Ela é respondida. Outra mensagem agora é retrucada e os dois já se vêem entre argumentos, ênfases e trejeitos em nome da razão. Ainda assim, no final do encontro, há um desvio na corrente que permite um beijo carinhoso.

Uma semana não: uma mensagem é passada. Ela é respondida. Outra mensagem é passada. E respondida. E mais outra. E ambos se vêem entre perguntas e respostas. Praticam, pessoalmente, bebendo cerveja e olhando os transeuntes da noite, uma conversa de mensagens.

Uma semana não: uma mensagem é passada. Ela é respondida.

Uma semana não: uma mensagem é passada.

Uma semana não: uma mensagem é respondida.

Uma semana não: uma mensagem é passada. Ela é respondida. E o processo se repete por mais algumas vezes.

Uma semana não e não: uma mensagem é passada já contendo uma resposta. Outra mensagem é passada já contendo uma resposta. E nossas energias impedem o fluxo da corrente. Não há, entre a gente, a alternância do sim e do não como uma relação exige. O que ascende o sentimento é dedicação. E dedicação é ganho. E é perda. A dedicação mantém ambos ligados e atraídos. E isolados, no sentido positivo do termo.

 Nossas energias nos repeliram, no sentido deprimente do termo.

sábado, 30 de outubro de 2010

Sangue Anunciado


Sempre mantivemos o amor pelo futebol. O futebol entre amigos. Todas as sextas, nós, um grupo de oito peladeiros, levávamos aquele momento mais a sério do que qualquer outro momento. Tão a sério que, passadas horas depois do jogo, ainda havia espaço para a celebração da parceria já fatigada.

E celebrávamos nosso encontro na casa de massagem que nos era mais acessível. O Bangalô (cinco estrelas no ramo) nunca passou de um sonho coletivo.

Já sabíamos, pelas constantes madrugadas de sábado lá, o nome de todas aquelas dispostas a dar carinho com a menor taxa de juros da cidade. Éramos também amigos da gerente.

Um sexta, porém, nossa celebração se transformou em concentração. Um grau de concentração tão acentuado que, nunca, nem mesmo nos nossos jogos mais difíceis, fora visto. Naquele início de sábado, deparamo-nos com os piores atacantes. Os piores matadores.

Dois homens de aproximadamente 40 anos, ambos com cabelos e barbas grisalhos, fitavam-nos com um aspecto nada amistoso. Um bebia e fumava concomitantemente. O outro apenas bebia.

Tal fato intrigou a nós, mais precisamente o Tito, nosso parceiro mais velho e com mais prestígio na casa. Pois o Tito se levantou e foi até a copa, onde se situava a dona, a Preta. Perguntou-a porque aqueles dois caras nos encaravam de forma tão severa. A Preta não soube responder.

 Eis que o Jardel dá um grito:

- Vamo embora, os cara tão loco, os cara tão de gargalo na mão!!

Era sangue anunciado. Os homens vieram em nossa direção com um ímpeto de justiceiro. Descemos nos debatendo por aquela escadaria à meia luz para nunca mais subirmos.

Na sexta seguinte, quando todos nós já celebrávamos mais outro pós jogo, revelei o motivo daquela última madrugada de sábado trágica. Eu havia proferido impropérios para a moreninha da casa, sobrinha da Dona. Ela, então, jurou-me vingança ainda naquela noite.

Tudo acontecera por uma má feitoria minha.

Nessa sexta, não saímos para celebrar.

Os jogos também não aconteceram mais.

E eu decidi, naquela noite, voltar a estudar.

sábado, 16 de outubro de 2010

O histórico jantar



Já o vi como dançarino. Já o vi como advogado. Já o vi como gangster e militar. Já o vi como pegador. Todas essas facetas ele representou de forma brilhante! Ele me seduziu via imagem. E isso me levou a afirmar o seguinte:

- John Travolta, apenas ele no planeta, é o homem para quem não recusaria um convite para jantar a luz de velas.

Não sou gay. Acontece que minha sensibilidade masculina e minha maturidade de hoje me empurrariam para um algo a mais. Eu sairia com ele em busca de pretensões maiores.

E no jantar, apresentaria a devida resistência para deixar nítida a minha postura: a de um homem que não é fácil. Ele precisaria desenvolver muito bem sua trova.

Mas isso seria só um aspecto.

Mais importante para mim é que, depois desse jantar histórico, nada seria como antes. Minha vida alçaria um outro patamar. Meu xaveco ganharia em conteúdo.

Para seduzi-las, contaria detalhes sobre o jantar com o John. Revelaria suas investidas contra mim, seus galanteios e todas as vezes que tentou me beijar. E que recusei.

Depois disso, qual mulher, em sã consciência, não baixaria a calcinha pra mim?

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O lixo paterno



Li por aí que não devemos ficar presos no passado. Não sei ao certo em que medida essa afirmação influenciou minha atitude de hoje, mas promovi a maior limpeza já realizada no galpão da casa.

Galpão era como o meu pai chamava a peça que, via de regra, chama-se despensa. Aqui, a mãe e eu chamamos a despensa de galpão por uma convenção afetiva. Por uma arbitrariedade amorosa.

E quando o charreteiro chegou para o serviço meio aguardado, pedi para que entrasse e avaliasse o frete. Com um olhar por alto, proferiu num tom mediano:

- 15 conto e eu levo tudo!

Por um breve momento, considerei muito razoável o valor que aquele humilde charreteiro havia posto em seu serviço. Depois, achei uma ofensa os quinze reais. Ele pôs esse valor para transportar os objetos guardados pelo meu pai.

Mas na esteira das reminiscências, percebia também o meu papel de cúmplice em classificar os pertences do velho como lixo. Como estorvo. O charreteiro e eu queríamos ver todas aquelas ferramentas, fios, cordas, papéis e peças velhas de caminhão longe dali.

Meu pai tinha um caminhão.

Ele também tinha o hábito de guardar e guardar até quando fosse necessário. E sempre havia um momento em que ele entrava e saia do galpão com um objeto empoeirado, assoviando.

Mas eu estava pondo um fim a tudo aquilo.

E mesmo que a gente não deva ficar preso no passado, foi difícil perceber que hoje parte do meu pai e de mim se foi para um além, naquela humilde charrete.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Num domingo frio...

Eu suporto ficar de segunda a sexta em casa, fazendo nada além dos afazeres domésticos. Mas não suporto ficar o domingo em casa. Mesmo com o clima não muito convidativo, convido-me a romper com essa sonolência dominical.

O domingo em casa me incomoda. O domingo em casa é, para mim, um não-domingo. Ontem, no domingo, a tarde não estava lá essas coisas, mas ainda assim eu ansiava por uma saída.

Então, minha mãe, vendo o meu sofrimento e também sofrendo do mesmo sentimento, convidou-me a romper com aquilo. Já estava no início da noite, não havia muitas alternativas:

- Vagner, que tal a gente ir ao big?
- A gente pode ver gente!

Por alguns segundos pensei num possível prazer em tal programa. Lembrei-me, então, que não tinha nenhum centavo no bolso. Aquele convite traria mesmo diversão? Será que ele não me conduziria a frustração?

A frustração de não poder possuir uma LCD com mais de 20” para assistir os filmes do Tarantino em minha aconchegante sala. Ainda assim, aceitei. E foi ótimo!

Depois de passearmos por todos os corredores, no apagar das luzes, literalmente, recebo um olhar fulminante da morena dos frios. Sim. A moreninha responsável pelos queijos que mais adoro olhou-me de uma forma reveladora.

Olhei-a da mesma forma. Tal encarada mútua durou alguns estimulantes segundos. Minha mãe aproximou-se:

- Vamos?
- Já tô cansada.

No carro, o episódio não passou batido, minha velha perguntou se eu conhecia a morena de branco, responsável pelos derivados do leite. Respondi que ainda não, mas que ela tinha toda razão. Sem entender, pediu para me explicar melhor:

- No big, mãe, a gente pode ver gente.

Ah, a moreninha dos frios...