Eu já fui um iniciado e nos locais de reunião repetíamos por três vezes: o segredo é inviolável, o segredo é inviolável...
Ele está por toda a parte, é um Deus, porém de diferentes formas. Venerado por muitos, sua renovação é constante, descomunal. Tentador, badalado, capaz de promover qualquer homem (qualquer homem) sem exceção e que não para de ganhar adeptos. Com alguns, já deixou de ser fascínio, virou patologia infecto contagiosa com efeito devastador. O Carro é a representação simbólica de uma organização cujo objetivo é deixar o homem irreconhecível, transforma-lo de profano a iniciado. Eu sinto medo de pessoas que amam Carro. E não se trata de preconceito ou hipocrisia, mas de desconforto, deslocamento. É que não me sinto a vontade nesses eventuais cultos as máquinas onde os rituais evocam a aparência: o que eu poderia ser; o que eu poderia fazer; quem eu poderia comer. Nessa confraria, não é o carro a pedra filosofal, mas a alquimia que posso praticar ao adquiri-lo. Com isso, vejo esses adoradores membros de uma sociedade diabólica na qual se subverte o conceito de felicidade e desconfigura o homem que ontem se contentava com as coisas simples da vida.
Na natureza há uma espécie de poeira negra que paira sobre as cabeças, confabulando em favor das frágeis cabeças.