sábado, 7 de novembro de 2009

Verossimilhança conjugal


É bom receber a visita de um casal amigo. É bom sentar-se no sofá para ouvi-los, para trocarmos impressões sobre nossas histórias. Tudo que eles dizem sobre a história deles tem uma lógica, todas as ideias e contradições deles obedecem às ideias e contradições nossas.

E o que eles falam soa pra mim como uma teoria da narrativa. É estudar o movimento de dois personagens dentro de um espaço quase que personagem. É entender por que o ambiente é importante para a sucessão dos acontecimentos.

Somos cúmplices. Entendemos até suas expressões faciais: os olhares, a gargalhada, os sorrisos contidos. Os aspectos que transformam a relação em literatura. Os exageros, o desvio da linguagem, o estranhamento. O xingamento.

O herói. Quando casamos ou quando começamos a namorar, tornamo-nos autores de primeira grandeza. Passamos a figurar em qualquer lista de leitura. Viramos imortais da Academia Brasileira de Desaforos. Formamos público.

Entregar-se para relação é apreciar literatura. É reconhecer o prazer e a importância de qualquer gênero narrativo. É deliciar-se com a poesia, é ficar em transe com um conto, é ter paciência para percorrer o longo e sinuoso movimento de um romance.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Banco ocupado


Não conseguiria suportar por tanto tempo o banco do carona imóvel. É muito triste uma ferramenta sendo mal utilizada. Sensação esquisita essa de visitar os lugares mais povoados na companhia fiel da solidão.

Agora ela voltou. Agora preciso bater todas as semanas o tapete ao lado. E conferir o cinto. Agora posso contar com sua solidariedade de ajeitar o espelho para sairmos da vaga com segurança. Dirijo melhor.

O quadrado, na época, nunca esteve tão quadrado. O laranjal não tinha mais o mesmo significado. Quando chegava lá batia uma vontade de sair logo de lá. Não me dedicava em achar uma vaga na sombra, numa posição boa para ver o que acontece aos nossos olhos.

Os entregadores ganharam dinheiro comigo nesse período. Os lanches saiam da chapa direto para minha mesa. Sentia saudade de pedir o cardápio pra entrarmos num consenso. Eu comia o que ela comia, dava-me prazer.

Agora voltaram nossas conversas nos bancos. O quadrado hoje serve para passarmos a semana em revista e projetarmos a próxima. O laranjal estimula nossa imaginação, ele permite que sonhemos com nossa casa de praia, com nossos amigos por lá.

Agora voltei a puxar assunto com os garçons. Nossa preocupação voltou a ser com uma mesa disponível e bem posicionada. E com a noite. E com nossas vidas. E com a nossa relação.

Tudo isso porque o banco do carona do meu carro voltou a ser ocupado. O banco voltou a ter sentido pra mim.