
Papai e mamãe tiveram todo o cuidado para parecer lúdico, aquele processo. Esperaram uma luminosa manhã de domingo para proferirem as seguintes palavras: - filho, tu sabias que vieste dos nossos corações?
Eu já estava numa fase em que podia absorver o impacto daquela informação. Era o que eles imaginavam. Eles estavam errados. Passei a usar como pretexto todas as vezes que me repreendiam. Covardemente.
Eu os agredia com a pior das agressões, aquela em que os hematomas são invisíveis a olho nu. Anos depois, choquei-me com a sabedoria popular, parecia que ela era feita pra mim. A população produz os provérbios.
E um deles diz que toda a maldade dirigida a alguém, o retorno é dobrado. É o que aprendi. Eis o que pauta o meu viver: a cautela. Penso duas ou três vezes antes de dizer algo a alguém, por mais que esse alguém seja inconveniente.
E mesmo assim tenho a convicção de que continuo ferindo as pessoas. Por mais que experimento conversas longas e animadas, posso agredir no apagar das luzes, na produção da última frase. Ainda não domino virgulação, não domino pontuação.
É errando que se aprende diz outro provérbio. Não erro com as pessoas como errava com papai e mamãe. Hoje, erro talvez pela inocência de achar a que a melhor palavra para mim é também para o outro. Esqueço que o vocabulário é individual.

