
Madrugada chuvosa e ventosa. Perfeito para dormir, pensei. O vídeo cassete marcava 02h: 47 min. Minhas pupilas dilatadas, no entanto, não me deixavam ao menos imaginar um gostoso sono.
O Serginho e sua fiel trupe entrevistavam o Ronaldo fenômeno. Na platéia, pipocavam perguntas interessantes, outras, porém, tolas. Normal. A parte musical do programa estava boa, Morais Moreira e O Rappa. E eu ali, no meu humilde quarto, deitado sobre dois colchões porque minha cama de casal – herdada dos pais - havia quebrado numa das laterais. Eu estava ali, contemplativo, tentando imaginar como seria viver diante de tamanho assédio.
Ele é de fato um fenômeno, sussurrava comigo mesmo.
E as horas passando, minhas pupilas finalmente demonstravam lampejos de fraqueza, eu agora conseguia vislumbrar o domingo.
Só consigo imaginar o dia seguinte no final do dia em que me encontro. Não sei o porquê disso. Talvez tenha sido influenciado por um livro, ler é muito perigoso. Ler é transformação. Não aconselho ninguém a ler um livro.
Agora estou inválido, não consigo mais prestar atenção em nenhum som, mas sinto um barulho esquisito, ele está muito próximo, ele está dentro do meu ouvido.
Era a língua do meu cachorro que anunciava o meio-dia de domingo.