Quando éramos crianças, meus amigos e eu resolvemos fazer a divisão dos times um tanto atípica: negros contra brancos. Entre risos e euforia geral, inclusive a minha, um dos meus amigos sugeriu jocosamente:
- O Vagner é o juiz!
Aquela frase, por breves segundos, soou-me despretensiosa, ingênua, pura como a percepção de uma criança. Mas só por breves segundos. Seu caráter bem-humorado foi engolido por um couro retumbante de gargalhadas:
- HAHAHAHAHAHAHAHAHA
Passado tal impacto, puseram-me imediatamente no time dos negros, pois o time claro possuía um elenco quantitativamente superior. Lembro-me que dei meu melhor naquele dia. Vencemos.
Quando comentávamos sobre as jogadas produzidas, todos juntos, brancos e negros, um dos meus colegas brancos aproximou-se de mim e sussurrou verdadeiramente:
- Tu era pra ter jogado com a gente.
Alguns anos depois, já com todos os pelos no corpo, fui novamente arremessado para tal encruzilhada, ou melhor, bifurcação. Numa discussão áspera, minha ex-namorada negra bradou:
- Para de ouvir esses rock, tu é negão e negão escuta samba!
Essa frase inegavelmente já não tinha mais aquele caráter ingênuo daquela que antecedeu a divisão dos times. E mesmo tendo articulado uma boa resposta para essa ideia escabrosa, lembro-me que seu teor sobreviveu em mim. Por um bom tempo.
Poucos anos transcorreram, quando ontem, diante do espelho, tomado por uma vontade de mudar substancialmente o visual do meu cabelo, minha bifurcação étnica mostrou de forma sobrenatural suas garras:
- Não estás querendo assumir a negritude dos teus cabelos?
Agora, porém, não sou mais aquela criança tímida da pelada, agora não sou mais aquele jovem adulto da discussão conjugal. E respondi com a maior convicção do mundo:
- Mais ou menos.

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