Somos dois aqui em casa. Minha mãe e eu. Mantemos uma relação saudável. Às vezes, passamos dias sem receber visitas e isso faz com que colecionemos cuidados um para com o outro.
Em nome de uma convivência respeitosa, tomo o maior cuidado com o 80, por exemplo. O 80 é um momento tão somente meu. Exclusivamente meu. Posso até fazer coco de porta aberta para as visitas, mas na comparação com o 80, privada vira banco de praça.
O 80, aqui, é o número do canal de sexo 24 horas.
Para aliviar a pressão de hormônios em combustão, recorro ao 80. Mas para que isso aconteça, não pode haver nenhum ruído oriundo do quarto da velha. Não sou moderno a ponto de imaginar comer pipoca com ela assistindo o Kid Bengala, por exemplo.
Certa noite, porém, meu ritual de solidão foi abruptamente interrompido. Esqueci, naquela noite, que ela estava sob medicação e de tempos em tempos ia até a cozinha medicar-se.
Mamãe me pegou no sofá suando.
Perguntou-me, sem deixar de se mover para a cozinha, se eu estava bem e por que já não estava deitado. Imediatamente troquei de canal e respondi, desastrosamente, que estava sem sono e que curtia um bom filme.
No dia seguinte, ambos tomando chimarrão sob a luz do sol que invadia a janela da cozinha, ela me olha nos olhos e pondera:
- Vagner, é o seguinte, não precisa ficar bloqueando as coisas. Nem dou bola praquele 80!

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