São duas e pico da manhã. O sono ainda está numa distância considerável. O filme que passa na TV não empolga muito. Nem o livro. Nem os torpedos que troco com a ficante (termo horrível) empolgam.
De súbito escuto a poderosa voz de um locutor da Globo anunciando os hits que enfeitaram e deram sentido as noites desvairadas da minha mãe, da mãe da ficante e de todos que viveram numa época que não vivi.
As roupas que os artistas vestiam, as cores que as boates tinham, as danças que as pessoas faziam. As músicas que repercutiam. Suas vozes. E toda uma percepção me vem à tona:
- Ah! Essa é a Diana Ross! Michael Jackson era fã dela!
- A Gloria Gaynor continua bonita!
- O Kennedy com seu cabelo e seu sax é um brega massa!
- Que bota massa esse negão está calçando!
- Poxa, Abba! O pai do Orelha adora!
Eu aprendo história por esses comerciais.
Eu aprendo comportamento nesses comerciais.
Assistir a clipes inteiros que são exibidos na madruga já não tem a mesma graça desses comerciais. Eles são longos, portanto, chatos.
Esses comerciais coloridos têm a duração exata para não cansar. A exata duração para empolgar.
Essas propagandas de coletâneas antigas são convites para se dançar deitado.
E depois que assisto, depois que sinto o som, o ritmo, o comportamento das pessoas da década com a noite mais colorida da história, desligo a TV e recupero o fôlego para ler.

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