sábado, 10 de abril de 2010

Minha praia agora é outra





Não sei mais coordenar os movimentos do meu pulso. Transferi a faculdade da compreensão para os dedos. Transferi para a luz a responsabilidade de carregar minha consciência. Perdi o olfato do papel.

Eu não tinha percebido. Eu já não me comunico com romantismo. Para falar o que penso com precisão, preciso de cigarros, de chimarrão, de fritura, do escuro. Comunico-me melhor no escuro.

Comunico-me melhor no ruído. Substituí o silenciador que há na ponta do lápis pela bateria de um teclado velho e sujo. Desprezei o amor da borracha, que doava um pouco de si para consertar meu erro, pelo Backspace. Não uso com a mesma habilidade as cores azul e preta.

Nunca impressionei uma mulher por uma carta. Nunca recebi um elogio caloroso pelo formato da minha letra. Só me diziam que ela era fofa. Era pouco. Só me frustrava.

Agora é diferente. Agora me elogiam. Com insinuação. Falam bem da minha aparência, da minha roupa, da minha barba. Não se importam mais com a estética da minha letra. Nunca mais ouvi que ela é fofa. Ouço que ela toca.

Minha praia agora é outra. E minha frustração agora é não ter vivido o romantismo de uma confidência aguardando na frente da casa. Sob a porta. Sobre o tapete.

2 comentários:

Unknown disse...

Hoje falo bem do teu texto, e, quem sabe, outra hora, eu fale bem da tua barba... heheh
Pô, muito bacana o texto, Vagner. Ele não "se revela" assim, "no más". É um texto pra quem sabe apreciar toda a beleza e elegância das coisas simples, apreciar a vida de outrora...
Eu também compartilho dessa paradoxal nostalgia de algo que sequer vivi. Abraço!

Vagner Vasconsa disse...

Envaidecido.